Flexibilidade tática

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Flexibilidade tática, n. 321, 17 nov. 2002.

 

 

Quem pensa que os primeiros tempos do governo Lula serão uma lua de mel talvez se engane. O lado de lá, se ainda está tonto por haver perdido tão redondamente, já começa a mostrar as unhas. Tenta emparedar Lula e o PT, cobrando a aplicação imediata de reivindicações petistas históricas, como salário mínimo decente e redução de impostos, desconsiderando a terra arrasada que deixa para o governo popular.

Do lado de cá, também há os que pretendem atendimento imediato a todas as reivindicações. O que tem levado a mídia a explorar ao máximo a questão dos “radicais” do PT, embora nesse campo estejam se embolando petistas das mais diferentes correntes, preocupados de que Lula não esqueça seus compromissos históricos. A preocupação é justa, mas, sem táticas adequadas, corre-se o risco de operar com muita emoção e pouca razão.

Qual a correlação real de forças que o novo governo popular terá pela frente? Lula venceu principalmente com o voto dos trabalhadores urbanos, de grandes setores do campesinato, das classes médias e dos marginalizados das cidades e dos campos. Venceu também porque o empresariado se dividiu e um setor considerável dessa classe “lulou”, asfixiado que estava pelas políticas de FHC, que só beneficiavam as corporações transnacionais, e as nacionais a elas associadas.

No entanto, o que significa tudo isso em termos de força social e política real? Excetuando os setores organizados dos trabalhadores, do campesinato e das classes médias, que não abrangem sequer 20% do total, a maior parte dessas camadas sociais encontra-se econômica e socialmente fragmentada. Olhando cruamente a situação, esses setores não possuem uma força social e política que possa ser comparada à do grande empresariado, que descarregou seu voto em Serra e conseguiu ainda arrastar consigo mais de 30% do eleitorado.

Em outras palavras, embora a campanha petista tenha desunido os adversários, a força social e política do lado de cá ainda é relativamente frágil. Ou seja, os adversários estão desunidos, mas ainda somos fracos. Nesse sentido, a boa política ensina que, quando os adversários estão desunidos, e nós fortes, podemos avançar com certa rapidez; quando eles estão unidos, se formos fortes haverá equilíbrio, ou poderemos avançar com cautela; quando os adversários estão unidos, e nós fracos, em geral somos obrigados a recuar; e, quando eles estão desunidos, mas somos relativamente fracos, temos que avançar também com cautela.

Assim, vendo cruamente a correlação de forças existente, não por acaso Lula afirmou que o problema do Brasil é mais político do que econômico. Consiste em superar a fragmentação econômica e social dos trabalhadores, camponeses e classes médias, fortalecendo sua força social e política, e manter os adversários desunidos. Só assim poderemos avançar no rumo das reformas estruturais reclamadas pela sociedade brasileira.

Essa não é apenas uma missão do governo Lula. É de todas as forças interessadas no sucesso das perspectivas históricas que sua vitória abriu. E, para isso, queiram ou não, será necessário muita flexibilidade tática, inclusive para evitar que os adversários explorem nossas possíveis divergências táticas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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