Figuração

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Figuração, n. 271, 17 nov. 2001.

 

 

É um resquício da tradição colonial que autoridades brasileiras, em suas viagens pelo mundo, façam figuração, arrotando grandezas, bravatas e uma independência que aqui dentro não praticam.

No reinado de FHC, por exemplo, o povo brasileiro foi submetido a uma duvidosa política de estabilização monetária, que conteve a inflação, mas, em contrapartida, gerou um brutal endividamento interno e externo, elevou de forma escorchante a carga tributária, alienou quase totalmente o patrimônio público e reduziu severamente os investimentos públicos e privados em novas forças produtivas.

Entre 1995 e 2001, a dívida interna cresceu quase 10 vezes (de R$ 62 bilhões para R$ 595 bilhões) e a externa quase dobrou (de US$ 145 bilhões para US$ 250 bilhões), a soma das duas chegando perto de tudo o que o país produz a cada ano. Hoje os trabalhadores e as classes médias entregam ao fisco cerca de 50% de seus rendimentos, sendo esse, além do desemprego, um dos motivos que levaram 20% da população a não poder pagar o que deve.

Mais de 70% do patrimônio público foram vendidos, em condições suspeitas, a grandes corporações estrangeiras e nacionais, a pretexto de reduzir o débito e ampliar os investimentos. A dívida, porém, como se viu, explodiu, e os investimentos reduziram-se a 18% a 20% do PIB, o que sequer consegue manter taxas positivas de crescimento.

Mesmo que se pudesse desprezar as terríveis conseqüências sociais dessa estabilização canhestra – desemprego avassalador, miséria, fome, violência urbana disseminada, desagregação social -, não menos piores são os fundamentos econômicos que o governo FHC está legando aos brasileiros.

Qualquer analista sabe que o Brasil e sua estabilidade dependem da recessão norte-americana, dos resultados da crise financeira argentina, da superação da crise energética (que hoje depende da decisão das grandes multinacionais que dominam o setor) e de outros fatores externos sobre os quais o país não tem qualquer influência. Vivemos na dependência externa e a decantada estabilidade monetária pode virar pó pela ação de qualquer daqueles fatores.

Apesar disso tudo, FHC achou de bom tom fazer bravata na ONU, atacando os países ricos por nossos problemas. É evidente que eles também são responsáveis, com suas políticas espoliadores que visam margens crescentes de lucros, independentemente das conseqüências sociais que produzem. No entanto, FHC e sua aliança nada fizeram para proteger o Brasil e seu povo diante daquelas políticas.

Ao contrário, subordinaram-se a elas com perseverança, a pretexto de alcançar a modernidade. Assim, como em tudo, FHC fez apenas figuração.

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