Experiências socialistas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Experiências socialistas, n. 540, s/d.

 

 

Queiramos ou não, a discussão sobre o socialismo continua, ainda hoje, tendo por parâmetro o naufragado socialismo soviético, enrolando o conceito num emaranhado de confusões.

Já que falamos da experiência chinesa, não custa nada aproveitar a ocasião para voltar a discutir a questão do socialismo. Os chineses continuam dizendo que estão na fase preliminar da construção socialista. Parte da esquerda considera que essa experiência nada tem de socialista, porque não implantou a igualdade.

Outra parte da esquerda, por seu turno, ignora a experiência chinesa, e continua afirmando ser necessário superar o socialismo de tipo soviético, como se este fosse o único conhecido. Assim, queiramos ou não, a discussão sobre o socialismo continua, ainda hoje, tendo por parâmetro o naufragado socialismo soviético, enrolando o conceito num emaranhado de confusões.

A começar pelo fato de que o tipo de socialismo tomado como parâmetro, ou seja, aquele implantado a partir dos anos 1930, na União Soviética, não era o sistema econômico-social preconizado por Marx. Este afirmava que, para realizar a transição socialista, era necessário que a sociedade contasse com forças produtivas avançadas. Durante algum tempo, pensou-se que a experiência soviética de desenvolvimento rápido, entre os anos 30 e 50 (apesar da segunda guerra mundial), demonstrara o contrário, e que Marx estava errado.

Por outro lado, muitos esquecem que o próprio Lênin, após o “comunismo de guerra”, dos primeiros anos de enfrentamento do jovem poder soviético contra a intervenção das tropas estrangeiras, viu-se constrangido a reconhecer que Marx tinha razão. Propôs um forte recuo, e buscou outros caminhos, através da Nova Política Econômica – NEP, entre 1922 e 1928, que combinava formas capitalistas com novas formas sociais de propriedade. Essa foi a primeira tentativa consistente de resolver o problema da construção socialista, em um país capitalista atrasado, que havia realizado uma revolução operária.

Portanto, bem vistas as coisas, há dois socialismos soviéticos a considerar. Ignorá-los, e considerar como concepção “tradicional” apenas o tipo de socialismo predominante entre 1930 e 1990, no leste europeu, é um erro histórico. Que se agrava, quando se relaciona o conceito de socialismo “como ponto de chegada definitivo”, e “modelo fechado”, com o conceito de ruptura. Esta relação pode estar na cabeça de alguns, inclusive dos que a combatem, da mesma forma que os moinhos de vento, transformados em máquinas de guerra, estavam na cabeça de Dom Quixote. Não passa de visão delirante.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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