Expectativas frustrantes

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Expectativas frustrantes, n. 353, 05 jul. 2003.

 

 

Cresce em alguns setores da esquerda, não apenas radical, a suposição de que Lula frustrará as expectativas do povo brasileiro e repetirá o conhecido padrão histórico de “conciliação e reforma”, através do qual as classes dominantes brasileiras têm se perpetuado no poder, embora transformando-se internamente.

Segundo esses setores, as diretrizes governamentais quanto às exportações, Banco Central, previdência, sistema tributário, legislação trabalhista, reforma agrária e reforma política, somente para ficar nas mais atuais, indicariam que aquela tendência à conciliação teria fincado raízes no governo, incapacitando-o para qualquer perspectiva de ruptura com o processo histórico de desigualdade, miséria e injustiça.

Para tais setores, Lula deveria realizar reformas que afetassem os interesses das frações dominantes da elite brasileira. Tais reformas, centradas na distribuição, deveriam ainda voltar-se para a moralização do sistema tributário, com medidas fortes contra a sonegação e pela progressividade fiscal, através do fortalecimento do aparelho fiscalizador e repressor. Não havendo realizado nada disso, ou pelo menos apontado medidas nesse sentido, os primeiros meses do governo Lula teriam sido decepcionantes para todos os que pretendem mudanças históricas por meio de reformas.

Eles estão convencidos de que a transição se completará quando Lula realizar as reformas acordadas com as elites. Seria, pois, ingenuidade supor que a transição findará quando houver ajuste externo, controle das finanças públicas e estabilização da inflação. Em outras palavras, acreditam que as eleições teriam dado a Lula poder para realizar reformas estruturais imediatas, que eliminassem a desigualdade, a miséria e a injustiça. Mal se dão conta de que, quando falam em fortalecer o aparelho fiscalizador e repressor, estão falando do aparelho construído pelas elites justamente para defendê-las. Isto, por si só, deveria alertá-los para as dificuldades do processo de mudanças que existe pela frente.

Mesmo que tenham razão em algumas das críticas que fazem, tais setores deveriam dizer claramente se dão a batalha como perdida e se já consideram o governo no campo inimigo das elites. Se não for este o caso, e se o governo ainda for considerado no campo popular, talvez precisem reavaliar sua tática. Seria mais produtivo para eles próprios reforçar as medidas do governo que permitem mobilizar e organizar as camadas populares.

Organização de comitês Fome Zero, implementação prática e ágil de assentamentos, organização de cooperativas de micro-crédito e cooperativas de comercialização dos pequenos produtores e uma série de outras “reforminhas” podem contribuir, e muito, para reconstruir a força social popular e influenciar os rumos do governo. Falar em reformas estruturais sem reconstruir tal força é o mesmo que disseminar expectativas frustrantes.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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