Euforia prematura

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Euforia prematura; 05 ago. 1998.

 

 

Não se pode negar que a campanha de FHC tem alguma razão para euforia. Há uma certa calmaria na situação econômica. A venda das teles está permitindo a entrada de alguns bilhões no caixa do governo. E, mais importante do que tudo, as pesquisas continuam mostrando uma consistente recuperação da popularidade presidencial. Elas podem até conter uma considerável dose de manipulação, mas o evidente marasmo das campanhas oposicionistas é incapaz de evidenciá-la.

Porém – há sempre um porém – talvez a euforia seja prematura. Primeiro porque a oposição ainda tem chances de virar o jogo. Pode fazer um esforço concentrado e atacar com precisão os pontos fracos de FHC. O eleitorado pode, então, descobrir que sua vida desarranjou porque estabilidade monetária sem crescimento tem efeito tão desastroso quanto crescimento com inflação. E que essa política se deve não só ao ministro da fazenda e ao presidente do Banco Central, mas principalmente às ordens do presidente.

Além disso, as consequências perversas da política do presidente tendem, por suas próprias contradições, a explodir com força. As medidas eleitoreiras, adotadas para aliviar o quadro do país até as eleições, podem não suportar o peso das diretrizes de longo prazo do governo.

A balança comercial é renitente na repetição dos déficits. As dívidas interna e externa se aproximam dos 500 bilhões de reais, impondo ao país um pagamento anual de juros e serviços de 60 bilhões. Isto é quase três vezes o que o governo obteve vendendo a Telebrás. O déficit fiscal chegou a 7% do PIB, obrigando a equipe econômica a malabarismos para não divulgá-lo. A economia continua devagar, quase parando.

O desemprego teima em desmentir o presidente e seu ministro que desconhece o que é ficar sem emprego. A inadimplência é tão alta que pouca diferença faz que os juros desçam dois ou cinco por cento. A quebradeira de empresas e negócios, do mesmo modo que a destruição da educação e da saúde, continua espalhando seus cacos por toda parte.

Nestas condições, mesmo que a oposição não vire o jogo por seu próprio esforço, a vaidade, a empafia e a popularidade do presidente-sociólogo podem ser levadas de roldão. Basta bater um vento mais forte, a terra tremer, as bolsas tossirem ou os capitais voláteis se escafederem, para a economia desandar e, com ela, o país todo. Neste caso, não haverá euforia que sustente a candidatura FHC.

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