Euforia despropositada

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Euforia despropositada, n. 372, 15 nov. 2003.

 

 

Recentemente, a imprensa começou a amplificar as notícias sobre a retomada das atividades industriais no Brasil, batendo na tecla de que já estamos livres da recessão e apontando para um novo ciclo de crescimento a partir de 2004. Alguns empresários também fazem eco a tais notícias, coincidindo em parte com as afirmações otimistas do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central.

Isso seria maravilhoso, se não estivesse rodeado de armadilhas. A primeira delas, e mais séria, relacionada com as vulnerabilidades externas do Brasil. Aliás, reconhecidas quando o governo se vê na contingência de aceitar as conhecidas imposições do FMI para conseguir mais alguns parcos bilhões de dólares como blindagem contra possíveis choques externos. É evidente que o FMI deu uma colher de chá, ao alongar o pagamento para 2007. Mas a obrigação de gerar superávites primários elevados continuará pesando como um fardo doloroso sobre as tentativas de crescimento econômico e desenvolvimento do país.

Nosso crescimento continua sufocado. Primeiro, pela impossibilidade de o Estado brasileiro investir pesadamente em infra-estrutura – 2 bilhões de dólares em saneamento não passam de uma gota d’água no deserto. Depois, pela necessidade de continuar praticando altos juros, para atrair capitais externos de curto prazo. E, ainda, mas talvez não a última, pela imperiosidade de elevar a carga tributária, para produzir superávites primários e demonstrar as garantias de pagamento das dívidas.

Pensar que poderemos sair desse círculo perverso, sem romper pelo menos um de seus elos, é uma ilusão que pode transformar-se em tragédia, particularmente se tivermos em conta os problemas externos e nossa capacidade real para enfrentá-los. Basta considerar apenas o que ocorre nos EUA. Sendo ou não uma simples bolha a propalada retomada de suas atividades econômicas, este país terá que elevar suas taxas de juros, para redirecionar o fluxo de capitais para seu mercado. Combinando isso com a persistente desvalorização do dólar norte-americano (20% em um ano) e com a candidez brasileira em deixar a flutuação do câmbio por conta exclusiva dos mercados, teremos uma idéia do que pode nos acontecer de ruim.

Afinal, nosso estoque de dívida externa ainda é grande: teremos que pagar de 30 a 40 bilhões em 2004. Nossas exportações e saldos comerciais ainda são pequenos em relação aos compromissos externos. Nossa economia se enfraquece com a valorização do real frente ao dólar. E os empresários temem investir se não houver garantias de que seu retorno será superior a seus custos financeiros. Num quadro como esse, mesmo resumido, a euforia demonstrada por alguns é não só prematura, como despropositada.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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