Ética e política

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Ética e política, n. 386, 29 fev. 2004.

 

 

O governo entrou em contra-ofensiva, proibindo o funcionamento de bingos e jogos eletrônicos, apesar da imprensa haver dado asas a outras denúncias sobre pressões para arrancar contribuições do jogo do bicho. Essa pretensa simbiose, entre o PT e setores acusados de ligações com o crime organizado, parece o veio escolhido para colocar esse partido e o governo contra as cordas e levá-los a nocaute.

As manobras da oposição conservadora e a ação desordenada de membros do PT e do governo, restringindo à ética algo que é eminentemente político, alertam para o fato de que deve estar em jogo muito mais do que o financiamento de campanhas por banqueiros do bicho e de outros jogos. Nas declarações da oposição e de alguns aliados do governo, há uma espécie de vangloria de que o enfraquecimento do ministro Dirceu o impedirá, assim como aos “desenvolvimentistas”, de cobrar mudanças na política da equipe econômica.

Mesmo que tais interpretações sejam ilações, o problema do governo e do PT transcende a ética e precisa um tratamento político. A não ser que ambos achem que bastam as ações moralizadoras, deixando de lado aquilo que é estratégico para seu futuro: a geração de oportunidades de trabalho e o crescimento econômico.

No PT, ética e política sempre andaram juntas. Em princípio, o partido deveria estar preparado para práticas diferentes, ao ampliar seu leque de alianças. Teria que ser mais exigente na seleção de filiados e quadros partidários. Deveria ser mais minucioso na verificação de irregularidades envolvendo filiados e aliados indicados para o governo. Não poderia perder de vista que o inimigo ficou baqueado, mas não morreu. E, acima de tudo, deveria considerar que a tática de amaciar e dividir o inimigo não pode substituir a estratégia de atender aos reclamos maiores de suas forças fundamentais de sustentação. Ao abrir flancos em qualquer desses aspectos, o PT e o governo sofreriam ataques, que poderiam ser paralisantes.

Por isso, se as ações contra o jogo e pela adoção do financiamento público das campanhas eleitoras representam a passagem da defensiva à contra-ofensiva, ainda faltam medidas para a passagem da contra-ofensiva à ofensiva. E estas devem concentrar-se na geração de oportunidades de trabalho (o que também inclui gerar empregos) e no crescimento econômico. Se o cochilo na indicação de um escroque levou à crise atual, a manutenção das altas taxas de desemprego e do baixo nível de renda da população pode levar, nos próximos meses, a uma crise de maiores proporções. O que não é um problema apenas do ministro Dirceu e dos “desenvolvimentistas”. É de todo o governo e de todo o PT.

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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