Estratégia equivocada

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Estratégia equivocada, n. 456, 09 jul. 2005.

 

 

O PT está diante de um oponente, o deputado Roberto Jefferson, que tem uma estratégia clara para defender-se das denúncias de corrupção nos Correios. Por um lado, ele se apresenta como réu confesso, sem medo de ter seu mandato cassado e ser indiciado. Talvez não seja difícil descobrir que, por trás dessa “coragem”, estão interesses poderosos lhe dando sustentação.

Por outro, ele torna público o fisiologismo do qual participava, com seu partido, acusando alguns comparsas que agiam na angariação ilegal do dinheiro público, seja diretamente através das estatais, seja através das empresas que prestam serviços a estas e a órgãos públicos. E está enredando dirigentes do PT na mesma trama e dizendo que todos os partidos e todos os parlamentares são iguais a ele.

Essa estratégia, que momentaneamente dissocia o presidente Lula da ação de dirigentes do PT e do ex-chefe da Casa Civil, tem como alvo, nesta primeira fase, apenas desqualificar e destruir o PT. Destruída a principal base de sustentação do governo Lula, supõe-se que este cairá por si mesmo, na pior das hipóteses nas eleições de 2006.

Se o PT não tiver em conta essa estratégia do deputado Jefferson, apoiada e incensada pela oposição tucano-pefelista, corre o risco de transformar o meliante em herói, apressar a destruição do PT e, por conseqüência, do governo popular. É evidente que o PT deve ressaltar, em todas as ocasiões possíveis, que o deputado é réu confesso, deve ser cassado e condenado. Mas tomar isso como ponto principal, para desqualificar as denúncias contra dirigentes do PT, representa uma estratégia equivocada.

A estratégia do PT deve consistir em reconhecer publicamente que não combateu, como deveria, as práticas fisiológicas, incorporadas por uma política de alianças sem limites. Sem isso, o afastamento necessário de todos aqueles sobre os quais pesa a suspeita de estarem envolvidos em casos de corrupção e as mudanças em seus órgãos dirigentes não passarão de panacéia.

Poderá investigar as acusações, mesmo aquelas que pareçam mentirosas. Declarar, em alto e bom som, sua disposição de depurar-se dos que participaram de ações de corrupção, e até livrar-se realmente deles. Mas isso não será mais do que colocar a responsabilidade sobre alguns bodes expiatórios e mudar a arrumação dos móveis na sala da direção partidária, se a política que propiciou as práticas de corrupção não for reconhecida e modificada.

Se a defesa do PT e do governo não for associada a tal estratégia, o presidente Lula poderá até fazer todas as concessões que achar necessárias à direita, na suposição de manter a governabilidade. Mas não salvará o PT da desagregação, nem o governo da ruína. O que representará a morte de um sonho que acalentou milhões de brasileiros durante anos.
Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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