Estado terminal

Conexão

WPO | ART | CON | Estado terminal; abr. 2001.

 

 

Apesar do empenho oficialista, desmancham-se as ilusões quanto à estabilidade política. Os distúrbios na economia, estimulados pelas projeções inflacionárias mais altas e taxas de crescimento menores, agravam os descompassos políticos, fragilizando a governabilidade, abalando a base governista e aumentando seus atritos internos, independentemente da ação oposicionista.

As denúncias de corrupção, envolvendo auxiliares e aliados do presidente, partem justamente de sua base, em disputa por posições. Elas  fornecem à oposição munição suficiente para manter o governo contra a parede, mesmo que FHC consiga evitar a CPI da Corrupção. Seu empenho direto em evitá-la, dando a impressão de que ele tem algo a esconder, firma raízes tão profundas na opinião pública e lhe causa um tal desgaste que, no final, será difícil dizer se, para ele, foi melhor impedir ou aceitar sua instalação.

Paralelamente, FHC tem sido constrangido a interferir pessoalmente para conter o conflito entre candidatos no próprio PSDB. Mas, apesar do compromisso da cúpula tucana em adiar a disputa, nem Serra, nem Tasso ou Paulo Renato, os potenciais candidatos do PSDB, abandonaram seus calendário de campanha. Eles têm noção de que, qualquer um que acate o apelo do presidente e amoleça, estará fora.

Mesmo porque todos sabem que FHC, em detrimento deles, acalenta o sonho de lançar Pedro Malan, que conta com total apoio dos centros de poder do sistema financeiro internacional e, segundo até alguns setores da esquerda, estaria em condições de evitar que o país afunde ante a crise inevitável com que se defrontará. Nessas condições, as sementes da discórdia corroem a base de sustentação do governo por todas as bordas.

ACM continuará batendo no governo, parecendo até mesmo ter deixado de lado a luta contra a pobreza, na certeza de que a luta contra a corrupção pode render-lhe dividendos políticos maiores. Ele opera a possibilidade de encontrar algum candidato do próprio campo conservador, que tenha um verniz de esquerda, como fez em 1994 com a escolha de FHC, mas se prepara também para a eventualidade de sair candidato. Ele joga para a galera e não para a elite.

O PFL, por seu turno, deve continuar o jogo ambíguo de fidelidade a FHC, ao mesmo tempo que mantém os carlistas em seus quadros. Para um partido experiente na difícil operação de conservar os pés em mais de duas oportunidades, essa situação até não é das mais desconfortáveis. No momento crucial, o PFL poderá abandonar FHC, sem qualquer remorso, em prol de sua reunificação e, mais importante ainda, da continuidade no poder por mais tempo.

Algo idêntico deve acontecer com o PMDB. Os incidentes envolvendo Jader Barbalho e o preço cobrado para fechar questão contra a CPI da Corrupção, são uma amostra do que FHC terá que enfrentar ao tratar com esse partido. E, quanto mais nítidas ficarem as preferências por uma composição em torno de Itamar Franco em 2002, mais complicada ficará a situação do Planalto com esse aliado de ocasião.

Assim, mesmo que a esquerda não insufle as manifestações estudantis e operárias, mesmo que as insatisfações na base da sociedade não desbordem em mobilizações, mesmo que o governo tenha apenas que se haver com as divisões e querelas pouco nobres de seus ex- e atuais aliados, os planos e ações de FHC para retomar a iniciativa política dificilmente passarão das intenções.

Além do calendário eleitoral, que obriga os atores políticos a operar candidaturas, alianças, programas e posicionamentos diante do governo em curso, todas as demais variáveis que agem sobre o quadro político brasileiro o empurram para a instabilidade. Os fundamentos da política econômica podem ser abalados por distúrbios internacionais, afundando a expectativa de crescimento ou melhoria econômica. A disputa selvagem pelo bolo reduzido da riqueza nacional deve causar mais fraturas na base de sustentação do poder e engrossar o descontentamento e a insatisfação social. O alastramento da corrupção, não só nos estratos intermediários da máquina pública, como naqueles próximos ao Palácio do Planalto, e o descompasso entre o que o governo promete, em termos de realizações, e o que realmente faz, em termos de implantação, tornaram-se pontos permanentes de desgaste.

Nessas condições, somente um milagre, ou a incompetência da esquerda em analisar com apuro a situação e aproveitá-la convenientemente, poderá salvar o governo FHC do estado terminal em que se encontra.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *