Esperando o milagre

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Esperando o milagre, n. 174, 24 dez. 1999.

 

O ano de 1999 começou com o mergulho na crise financeira que liquidou o Plano Real e desandou o segundo mandato de FHC antes de começar. Depois, arrastou-se penosamente. O governo, para pagar em dia aos banqueiros internacionais, conforme as exigências do FMI, agarrou-se ao ajuste fiscal, obtendo superávit às custas de golpes contra aposentados, serviços sociais e investimentos públicos. Fora isso, fracassou em tapar os rombos nas contas externas e impedir a bola de neve do endividamento, que permanecem como espadas prontas a descer sobre o pescoço do Brasil. E foi incapaz de impedir que a unidade política que o tem sustentado entrasse em franco processo de desagregação.

Em contrapartida, as camadas populares ainda aceitaram relativamente conformadas os custos do ajuste e não se rebelaram de maneira persistente. Embora tenham ocorrido o caminhonaço, o tratoraço, a longa marcha dos sem-terra e outros segmentos populares e a grande demonstração das oposições em Brasília, de agosto em diante, os setores populares descontentes se recolheram, permitindo que a guerra intestina que grassava nas hostes governistas ficasse circunscrita aos subterrâneos do poder.

Não se pode ignorar que pipocaram, com intensidade maior do que em 1998, movimentos de inconformismo de operários, sem-terra, aposentados, sem-teto e outras camadas populares. Entretanto, eles não confluíram para um caudal que forjasse a força social e política capaz de romper a passividade e colocar o governo diante de uma situação crítica.

Talvez isto explique porque FHC persistiu em considerar-se forte o suficiente para atacar as oposições no tom de sempre, retaliar os desafetos de seu próprio campo, inclusive ACM, criar atritos com o Judiciário e tentar uma inflexão para a terceira via social-democrata. É verdade que, neste caso, não entendeu do que se tratava, o que lhe valeu pitos chega-prá-lá de Clinton e Blair. E que também não se deu conta de que não mais seduz políticos da oposição, não pode mais contar com o voto incondicional de sua base parlamentar e termina o ano com os mesmos problemas que enfrentava no final de 98.

O câmbio permanece flutuante, a moeda desvalorizada e os juros altos. Há uma frenética tendência para elevar tributos, persiste o risco inflacionário, a produção teima em cair, a quebra de empresas não pára, o desemprego tornou-se renitente, a insatisfação social cresceu e a instabilidade política nunca cedeu. O Brasil parece um gigante patinando num pântano, totalmente à mercê dos investidores internacionais e da boa vontade das grandes potências.

Se dependessem dos vaticínios dos arautos governamentais, os juros estariam num patamar civilizado, o desemprego teria desaparecido, as exportações teriam ultrapassado o estimado saldo de US$ 11 bilhões e o PIB teria chegado a 3% ou 4%. Entretanto, como nada disso ocorreu, o reveillon deslumbrante da passagem de ano ficará restrito à burguesia globalizada, que hoje conta em suas fileiras com as poderosas alas do crime organizado e do narcotráfico.

Nesse contexto, os aliados do governo movimentaram-se no sentido de estabelecer estratégias de desvinculação, nem sempre explícitas. Em sintonia com os rumos internacionais, o PFL redirecionou-se para a democracia-cristã, enquanto o PMDB ainda vacila entre cair no colo de Itamar ou manter por mais tempo suas sinecuras governamentais.

Por falar em Itamar, cujas posições públicas apareceram como quixotadas aos olhos do Planalto e outras forças políticas, seu aparente isolamento vem sendo rompido à medida que sua oposição à política neoliberal tem sido percebida como decisão coerente. Nessas condições, ele se cacifa para atrair setores da esquerda e conformar um bloco de centro-esquerda contra a aliança conservadora. Coloca em xeque não só o domínio neoliberal, como a hegemonia do PT sobre a esquerda.

Paradoxalmente, mesmo representando um reforço a oposicionistas como Itamar, a direita pensante e o governo depositaram grandes esperanças na inflexão do PT para o centro, com o abandono do socialismo como perspectiva e com a retirada do “Fora FHC” das bandeiras partidárias. A mídia jogou pesado para influenciar as decisões do congresso petista, já que os estrategistas do Planalto, ao contrário do que dizem, consideram preferível enfrentar Itamar, apoiado pelo PT, do que confrontar-se com Lula.

Primeiro, porque a hegemonia estará com o centro e não com a esquerda. Segundo, porque sabem que Lula é um líder visceralmente intuitivo. Sua moderação atual está associada ao presente conformismo dos trabalhadores. Se estes romperem a carapaça imobilizante e se radicalizarem, Lula quase certamente os acompanhará, do mesmo modo que as acompanhou no caminho da passividade.

Num possível cenário de agravamento da insatisfação social, um Lula radical será tão ou mais perigoso eleitoralmente do que Chávez. Como o socialismo continuou no programa do PT e o “Fora FHC” só saiu de banda, permanecendo como possibilidade, a futura emergência de um Lula e de um PT radicais é algo que não se pode desprezar. Assim, se o esperado milagre da recuperação econômica e social não ocorrer em 2000, como prevê o governo, 1999 terá sido um ano feliz para FHC e ele nem percebeu.

 

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