Esperança e realidade

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Esperança e realidade, n. 346, 17 mai. 2003.

 

 

Há uma parte da militância do PT inconformada com as políticas do governo Lula. Para ela, o PT só tem feito envergonhá-la. As grandes bandeiras do partido teriam sido substituídas por propostas que sempre repudiou. O diálogo aberto e franco com a população teria sido abandonado. E os sonhos e esperanças de um modo novo de governar teriam sido soterrados. Em outras palavras, como diz o leitor Sávio Corinaldesi, ou o PT foi desonesto quando oposição, ou é desonesto hoje, no governo.

Nada muito diferente do que têm dito Heloisa Helena, Babá, Luciana Genro e Lindberg Farias. Ou têm afirmado Geddel Vieira Lima, Arthur Virgílio e Jorge Bornhausen, só para não esquecer que as coisas são menos lineares do que parecem. E todos sonham, como o leitor Sávio, com o dia em que “nossas ruas e praças (voltem) a se povoar de ‘caras pintadas’ para exigir o afastamento de Lula e sua equipe do poder”.

Pelo jeito, não interessa que, havendo assumido apenas uma parcela do poder, em poucos meses o governo Lula tenha colocado a luta contra a fome no centro das discussões e da agenda do país, esteja operando no sentido de reforçar as pequenas economias familiares rurais e urbanas, haja adotado posições ágeis e firmes em defesa da soberania nacional e da afirmação do Brasil no cenário internacional, e venha se esforçando para ampliar os espaços democráticos. Nada disso conta.

O que conta é que o Brasil deveria ter sido mudado, e rapidamente, com a implantação das grandes bandeiras do PT. Infelizmente, porém, esse sonho não pode ser realizado, nem por Lula, nem pelos que o criticam, se estivessem em seu lugar. Mudar o Brasil, na atual correlação de forças nacionais e internacionais, é muito mais complicado do que qualquer filosofia que adotemos. Não basta vontade, ou fidelidade às grandes bandeiras. É necessário, mais do que tudo, ter em conta a realidade e adotar táticas que neutralizem os adversários, mobilizem grandes contingentes e acumulem forças, tendo como objetivo reconstruir uma grande força social e política popular.

Nesse contexto, seria um erro transformar em divergências estratégicas, ou mesmo de princípio, as divergências em torno da política financeira, das propostas de reforma previdenciária e tributária, e das supostas ou reais declarações e decisões infelizes de vários ministros. Considerar que o PT e o governo Lula mudaram de natureza, tornando-se desonestos, e transformar tal crença em cavalo de combate, significa substituir o método franco da crítica pelo método administrativo de agir como adversário e, na prática, colocar-se na esdrúxula situação de aliar-se às viúvas do governo FHC. Nada bem para quem pretende mudar o Brasil.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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