Especulação irracional

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Especulação irracional; 25 ago. 1998.

 

 

O título é de uma expressão de Gustavo Franco, presidente do Banco Central, ao comentar a crise internacional e a queda no valor dos títulos da dívida  brasileira. Depois de redescobrir a roda, culpar os outros pelos problemas da economia nacional  –  como alíás é a tônica da propaganda de FHC no horário eleitoral  -, dizer que enfrentaremos uma fase de turbulência, mas que logo estaremos livres dela, embora a crise na Ásia deva durar uns 10 anos, ele manda o recado de que continuaremos a crescer moderadamente.

Para quem antes assegurava que o pior da crise asiática havia passado, que estavamos imunes aos ventos da especulação financeira e que logo estariamos crescendo aceleradamente, até que o nada modesto Gustavo Franco deu uma guinada, mesmo sem abandonar sua costumeira arrogância, tão comum aos membros do governo FHC.

De todo modo, suas declarações previnem para algo que o governo descartava: turbulências e impossibilidade de crescimento rápido. Evidentemente, não se pode assegurar que a crise se abaterá sobre o Brasil daqui a 10, 30 ou mais dias. O governo ainda tem reservas internacionais não desprezíveis, está queimando as empresas estatais para assegurar essas reservas e manter os compromissos com o sistema financeiro internacional e, tão importante quanto, permitir a FHC dizer na televisão que vai assegurar a estabilidade a qualquer custo, mesmo que tenha que tomar medidas impopulares.

Vivemos uma situação surrealista. Desemprego, inadimplência, quebra de empresas, venda da patrimônio público a qualquer custo, sucateamento da saúde, desarranjo da educação – nada disso é considerado impopular pelo imperador, digo, presidente. O déficit público alcançou a perigosa marca de 7% do PIB, nosso débito em conta corrente externa continua superior a 30 bilhões de dólares, o comércio e a produção internos estão quase paralizados em virtude da queda do poder aquisitivo, mas tudo isso seria culpa da crise externa.

Então, o que será medida impopular se a crise se abater sobre nós com toda a força? Que limites vamos romper, além desses? Em lugar de enfrentar a realidade da turbulência e da estagnação, FHC a usa para fazer jogadas de marketing e reforçar sua imagem, prometendo um país de sonhos, que não poderá fazer porque já destruiu as bases que possibilitariam sua construção. Pena que a oposição tente concorrer com promessas idênticas, em vez de colocar o dedo na ferida da especulação irracional que está para arrebentar.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *