Espada sobre a cabeça

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Espada sobre a cabeça, n. 263, 22 set. 2001.

 

 

Há quem pense que a decisão do Império americano, que tem um Bush como xerife, de responder ao terrorismo fundamentalista árabe com o terrorismo de Estado, terá efeitos negativos apenas sobre as regiões ou países envolvidos com o problema.

O bom senso histórico recomenda, porém, que se tome na devida conta todas as implicações que tal decisão comporta, tanto sobre aquelas regiões e países, quanto sobre os demais países do mundo, em todos os terrenos.

O Império americano tem poucas opções para resolver esse conflito. A melhor delas seria os EUA mudarem radicalmente sua política em relação aos povos, abandonando seu hegemonismo de potência nuclear e colaborando decisivamente para retirá-los da situação de miséria e ignorância a que foram levados, seja pelas políticas coloniais, seja mais recentemente pelo neoliberalismo.

É verdade que isso levaria tempo. Em termos concretos, os EUA teriam que retirar seu apoio à política terrorista de Israel contra os palestinos, suspender os bombardeios e o bloqueio ao Iraque e abrir caminho para normalizar suas relações com aqueles países que considera bandidos, por não aceitarem sua política de dominação econômica e cultural. Só através de um processo desse tipo os próprios povos isolariam seus fundamentalistas e liquidariam o terrorismo. Essa seria uma política de paz, mas pedi-la ao Império talvez seja o mesmo que pedir que mude sua natureza.

O que o Império americano proclama, através de seu arauto, é uma política de guerra. E, nas condições em que essa guerra terá que ser travada, com o inimigo fundamentalista disseminado não apenas pelas diferentes nações
árabes, mas também pela maioria dos países do mundo, como ficou demonstrado com os atentados nos EUA, o que se pode prever será uma brutal tentativa de reeditar as políticas ditatoriais e repressivas que o Império americano disseminou pelo mundo nos anos 60 e 70 do século passado.

E, como é de hábito do Império, ele catalogará no rol dos fundamentalistas não só os terroristas reais, mas todos aqueles que se opõem às suas políticas de dominação e repressão. A CIA já foi autorizada a utilizar novamente seus
velhos métodos de assassinato e terrorismo, indicando que a espada ianque estará sobre a cabeça de todos.

Assim, em defesa da democracia no próprio Brasil, não podemos fingir que não temos nada a ver com o que aconteceu. É fundamental separar a solidariedade à dor do povo americano da solidariedade e apoio à política de guerra de Bush. É necessário opor-se à guerra e condenar, com a mesma ênfase, tanto o terrorismo fundamentalista quanto o terrorismo de Estado dos EUA e de seus aliados. É imprescindível repudiar as tentativas de confundir os povos islâmicos com o terrorismo e exigir do governo brasileiro independência no trato dessa questão, ao invés do sabugismo vergonhoso demonstrado por FHC desde o primeiro momento.

Numa hora como essa, a renúncia de Jader e o acordo para levar Sarney à presidência do Senado não passam de episódios menores e desgastados de uma política suja.

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