Escondendo o rabo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Escondendo o rabo, n. 215, s/d.

 

 

ACM e Tasso Jereissati sentiram o soco no fígado e já não escondem que as urnas evidenciaram o descontentamento popular em relação ao governo FHC. Afinal, mesmo não computando os votos petistas em Belo Horizonte, Fortaleza e outras cidades em que está coligado, o PT mais do que dobrou a sua votação em relação a 1996 e abocanhou 28% dos votos nos 57 municípios com mais de 200 mil eleitores, numa demonstração de que, apesar de suas vacilações, ainda pode ser o partido referencial para as camadas populares.

Não por acaso, o PFL decidiu adotar uma postura nitidamente ideológica no segundo turno, vetando o apoio a candidatos do PT. Ao contrário de FHC, ACM e seus parceiros sabiam das insatisfações que grassavam na sociedade. Em função disso, ainda em 1999, realizaram uma inflexão estratégica de cunho demagógico, com vistas a disputar o voto popular contra a “onda vermelha” que subiria, inevitavelmente, se o PT e a esquerda soubessem nacionalizar a campanha, demonstrando que os problemas locais são decorrentes, mais do que nunca, das políticas federais. O PFL pretende não só polarizar a campanha em Curitiba e Recife, como aparecer como a opção “popular” de 2002 contra o perigo petista.

FHC, o PSDB e a maior parte da mídia associada ao governo estão adotando, porém, a tática de “esconder o rabo”. Por um lado, como acentuamos nos comentários anteriores, querem fazer crer que o crescimento do PT e da esquerda não foi tão considerável, que a campanha não foi federalizada e que, além disso, venceram os “moderados” do PT. A revista Veja chega a dar capa para o “PT rosa”, ignorando o fato de que a campanha de Marta talvez tenha sido uma das mais “vermelhas” já realizadas pelo PT em São Paulo. Por outro lado, a partir da disputa em São Paulo e Goiânia, esforçam-se em dar a impressão de que o inimigo é outro, é o malufismo. Ou seja, apesar das divergências, PSDB e PT podem unir-se quando se trata de derrotar o “inimigo comum”. Com essa manobra, FHC e seu governo pretendem sair da linha de tiro, evitar a inevitável e mais clara federalização da campanha no segundo turno e constranger o PT a aceitar a esdrúxula idéia de que o PSDB é “adversário”, enquanto Maluf é “inimigo”.

O PT não pode se negar a aceitar votos, mesmo oportunistas. Mas isto nada tem a ver com mudanças estratégicas. Maluf tornou-se o alvo principal em São Paulo porque foi para o segundo turno, nada mais. Os inimigos do povo são FHC e seus partidos de sustentação, o que inclui o PPB de Maluf. O PPB é parceiro do governo FHC e só se sustentou em São Paulo porque contou com apoio federal. Por isso, e ainda ter que derrotar diretamente o PSDB em Belo Horizonte, Campinas, Guarulhos, Diadema e Mauá e, indiretamente, em outras 15 ou mais cidades, o PT precisa evitar o erro de permitir que FHC e o PSDB escondam o rabo.

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