Entre sacrifícios e sacrifícios

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Entre sacrifícios e sacrifícios, n. 359, 16 ago. 2003.

 

 

Há certa tradição, na esquerda, de digladiar-se até a exaustão em torno de questões táticas, mas nem tanto em torno de questões estratégicas e de princípios. As reações provocadas pelas políticas de reforma da Previdência e contenção da inflação estão nesse caso. Muitos tratam essas políticas não como questões táticas, e nem mesmo estratégicas, mas como questões de princípio.

Penso nos cenários que teríamos pela frente se o governo Lula tivesse decretado a moratória, rompido com o FMI, iniciado um processo de desapropriações e assentamentos rurais e reestatizado as empresas privatizadas. Descarto aqui a hipótese, nada improvável, de resistências internas sérias e de intervenções externas. Mas suponho que, mesmo no melhor dos cenários, nossas linhas de financiamento externo permaneceriam cortadas e que os capitais aqui investidos (inclusive brasileiros) voariam rapidamente para outras plagas.

Contaríamos com a parcela do PIB que atualmente é desviada para o pagamento das contas externas. Porém, isto ainda seria pouco para alcançar taxas de poupança e investimento em condições de impulsionar o crescimento econômico. Pergunto, então, o que faríamos para elevar tais taxas, recuperar a capacidade de financiamento do Estado e ingressar num processo de reconstrução industrial, geração de empregos e criação de riqueza nova. Pergunto se conseguiríamos fugir da imposição de arrancar uma parte substancial do couro daqueles que criam valor, isto é, dos trabalhadores das cidades e dos campos, incluindo o confisco de parcelas de salários, aposentadorias e outros rendimentos, como aliás tiveram que fazer todas as revoluções populares, para investir e crescer economicamente.

Essas perguntas e exercícios de cenários econômicos, sociais e políticos deveriam ser feitos por todos aqueles que se afobam em afirmar que o governo Lula mudou de natureza. Também não concordo com a atual política macroeconômica, principalmente porque acho fácil vencer a inflação criando recessão, através de juros altos e contingenciamento de investimentos e créditos. Difícil será vencer a inflação e mantê-la sob controle com taxas crescentes de desenvolvimento econômico e social. Mas não tenho a ilusão de supor que a combinação de crescimento com controle da inflação pode ser feita sem sacrifícios e sem penalizar, de alguma forma, também aos trabalhadores.

Em qualquer dos casos, a situação é complexa. Não se pode desprezar a famosa “ação dos mercados”, nem a necessária flexibilidade tática para evitar retaliações externas e internas. O governo decidiu aplicar a tática macroeconômica da menor resistência. Só a prática vai mostrar se os sacrifícios impostos por ela foram capazes de reduzir as vulnerabilidades externas do Brasil diante da “ação dos mercados” e permitir a retomada sustentada do crescimento, como está sendo prometido. Se não der certo, aí sim o governo Lula terá duas opções: ou muda de tática, ou muda de natureza. Porém, descartar a priori a primeira possibilidade seria um erro histórico crasso.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *