Entre o feijão e o sonho

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Entre o feijão e o sonho, n. 488, 25 fev. 2006.

 

 

Quando o calendário eleitoral se impõe, não só à direita, mas também à esquerda, a questão de agitar a bandeira do socialismo (ou do comunismo, já que muita gente confunde as duas coisas), ou elaborar programas táticos que levem em conta os níveis de consciência e de organização dos eleitores, torna-se uma agonia ainda maior para os que acham que o objetivo socialista é o objetivo de sempre.

Apesar do sonho de que tal objetivo esteja pronto para desabrochar nos corações e nas mentes das grandes massas, o feijão da realidade tem nos mostrado que não é bem assim. A proposta socialista granjeia muita simpatia, mas as expectativas e reivindicações que aquelas grandes massas querem ver e ouvir guardam uma distância considerável das expectativas e reivindicações que chamaríamos de socialistas. Não é por acaso que aqueles candidatos de esquerda, que tomam o objetivo socialista como seu objetivo imediato, recebem votações insignificantes.

Em outras palavras, embora mantendo o objetivo socialista de longo prazo, nas questões imediatas do processo eleitoral (e, em geral, dos processos reais de lutas econômicas e sociais), os socialistas são obrigados a estabelecer objetivos mais condizentes com as expectativas e reivindicações imediatas das diferentes camadas populares, se é que desejam ter algum sucesso nas candidaturas que lançam e nas lutas em que se metem.

Ou, se não pretendem ver suas palavras se perderem ao vento. Isso porque a tomada de consciência das massas populares jamais será fruto apenas da propaganda socialista. Ela depende, fundamentalmente, da experiência de luta, da experiência conquistada nos embates econômicos, sociais e políticos, que lhes obriga a procurar outro caminho para livrar-se da exploração e da opressão.

Na maior parte da história do Brasil republicano, as grandes massas da população viveram sob regimes de exceção. Os breves intervalos democráticos sempre foram tão carregados de injunções autoritárias, que o voto era apenas tomado como moeda de barganha para a venda de pequenos favores. Foi a partir das eleições de 1989 que as massas populares passaram a adotar o voto como instrumento de participação. E, para o bem ou para o mal, passaram a acreditar que, através do voto, podem realizar mudanças profundas na vida brasileira.

Nessas condições, se os socialistas fugirem dessa realidade reformista, como o diabo foge da cruz, e desprezarem essa experiência e crença populares, achando que basta bradarem o socialismo como remédio para todos os males, e o utilizarem como instrumento revolucionário, eles certamente gastarão seus esforços e seus sonhos em vão. Enquanto isso, a disputa e o feijão real, que envolve as grandes massas e pode educá-las, passa ao largo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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