Entre a cruz e a caldeirinha

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Entre a cruz e a caldeirinha, n. 361, 30 ago. 2003.

 

 

Parecemos haver entrado numa situação esquizofrênica. A ultra-esquerda, que chama Lula de traidor por haver, supostamente, prejudicado os servidores públicos, une-se ao PSDB e ao PFL para fazer oposição ao governo. Setores descontentes da esquerda, que acusam o governo de morosidade na reforma agrária e na aplicação das políticas sociais, ameaçam migrar, ou de fato migram, para partidos… aliados do PT no governo, talvez para fazer oposição “por dentro”.

Por seu turno, a direita civilizada radicaliza sua oposição parlamentar porque o governo estaria ameaçando mudar a política econômica e alguns dos dogmas neoliberais implantados durante os mandatos de Collor e FHC. E a direita raivosa volta à cena, através da União Democrática Ruralista, da TFP e de uma mistura de viúvas ultra-direitistas do regime militar, acusando o governo de ser complacente com o MST e as ocupações de terras, e ameaçando armar-se e enfrentar à bala os movimentos sociais e a reforma agrária.

Em outras palavras, ou a esquerda descontente se perdeu na apreciação do que realmente estava em curso, sem notar as tendências de mudanças a longo prazo, ou a direita está enxergando fantasmas aonde não existem e está se desesperando por muito pouco.

Na prática, como já tivemos oportunidade de reiterar em comentários anteriores, há uma certa esquerda, inclusive dentro do PT, que não admite mediações táticas, não admite sacrifícios de tipo algum, nem dos setores de altos proventos do funcionalismo público, para ganhar tempo, conquistar ou neutralizar setores adversários e acumular forças e poder avançar no rumo das metas estratégicas. É a turma do tudo ou nada e que, por paradoxal que pareça, pode transitar para os braços da direita, como já ocorreu em vários momentos da história.

O mesmo ocorre na direita, com aqueles setores que não estão dispostos a fazer qualquer tipo de concessão. Inicialmente aturdidos pela grande vitória popular nas eleições, eles agora começam a vislumbrar o fato de que o governo Lula, apesar das concessões que também se vê obrigado a fazer para alguns setores dominantes, está determinado a realizar algumas das mudanças estruturais que o Brasil necessita, mudanças que vão atingir privilégios e interesses arraigados, como o dos latifundiários. Só o fato de o governo se negar a reprimir, como antes, os movimentos sociais rurais é o bastante para levá-los a articular-se e, como declararam, a armar-se.

Assim, aos poucos, vamos todos sendo empurrados para ficar entre a cruz e a caldeirinha. Nesse contexto, quem não fizer as devidas mediações táticas passará de uma para outra sem dar-se conta e por mais que a retórica esteja carregada de explicações sobre a defesa dos interesses populares. Mesmo porque, em política, o que vale mesmo é a ação.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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