Enfrentando o capitalismo

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Enfrentando o capitalismo, n. 490, 11 mar. 2006.

 

 

Tem sido comum, no debate atual, a idéia de que o enfrentamento contra o capitalismo só é verdadeiro se tiver como destino imediato o socialismo. O socialismo tem que estar na campanha eleitoral, nas lutas cotidianas, em tudo. Interessante, porém, é que muitos dos que se batem por essa luta permanente pelo socialismo tranqüilamente atrelam a ela a luta pela reforma agrária.

Digo interessante porque a reforma agrária é uma luta tipicamente… capitalista. Foi uma bandeira burguesa contra o feudalismo e tem sido uma bandeira capitalista democrática naqueles países onde a burguesia não teve força ou não quis realizá-la. Mas, como aspecto socialista, ela só possui o fato de que, ao democratizar a terra, cria também as condições para o desenvolvimento do trabalho assalariado e, portanto, do operariado rural. Isso ocorre mesmo quando a cooperação agrícola é amplamente utilizada.

Assim, quando falamos em socialismo, capitalismo e luta contra o capitalismo, assim como em democracia, liberalismo e neoliberalismo, é preciso ter em mente sobre o que realmente estamos falando. O capitalismo, forjado pela acumulação mercantilista da primeira onda colonial (entre os séculos 15 e 19), consolidado pela revolução industrial e pela segunda onda colonial (entre os séculos 19 e 20), e reanimado pela revolução científica e tecnológica (desde a metade do século 20), teve um desenvolvimento desigual. Disso resulta que, embora a essência do capitalismo seja a mesma em todos os países, a forma que ele assume em cada um é diferente.

Em outras palavras, o capitalismo brasileiro não é igual ao europeu, ou norte-americano, ou japonês, para ficar nos mais desenvolvidos. Do ponto de vista econômico, social e político, os problemas que estes apresentam para uma passagem ao socialismo são diferentes, às vezes em grau considerável, dos problemas que o socialismo brasileiro terá que resolver. Voltando à reforma agrária, é incompreensível falar nela nos Estados Unidos. Mas no Brasil, onde a burguesia industrial não teve qualquer interesse em realizá-la, porque isso significaria escassez de força de trabalho industrial e preço mais alto da mão-de-obra, ela ainda é uma necessidade.

Porém, repetimos uma necessidade democrática (em seu sentido estrito, portanto capitalista), não uma necessidade socialista. Em outras palavras, a bandeira socialista no Brasil tem, para início de conversa, uma mancha capitalista. Isso pode chocar os que acham que todos os capitalismos são iguais e devem ser enfrentados da mesma forma. Mas não deveria chocar os que enxergam o processo de luta pelo socialismo como algo que deve ser analisado conforme as situações e as realidades concretas de cada país.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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