Encruzilhada II

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Encruzilhada II, n. 254, 21 jul. 2001.

 

 

O primeiro problema diante de qualquer encruzilhada, ainda mais quando não há sinais, ou a sinalização é confusa, consiste em decidir que caminho tomar. E, tomando tal ou qual caminho, estar preparado para as conseqüências que advirão. No caso atual do Brasil, por exemplo, pode ocorrer que sejamos levados a nova encruzilhada, ainda mais confusa e embaralhada.

Levantamos essa questão porque todas, ou quase todas, as forças políticas trabalham com a hipótese de que o atual quadro econômico, social e político brasileiro se sustentará até 2002. Ou seja, que continuaremos diante da encruzilhada, mas não chegaremos a nos transformar numa Argentina. Há inúmeros argumentos teóricos para sustentar que nossa economia é mais forte, mais complexa, tem outros fundamentos, blá, blá, blá. Também há muita disposição prática para apertar o garrote fiscal no pescoço do povão e gerar superávits pelo tempo que for necessário. Assim, há uma suposição disseminada de que sairemos da encruzilhada ao resolver-se a disputa política democrática de 2002.

No fundo, a mesma suposição que levou os argentinos a votar em De la Rúa e o governo de FHC a acreditar que São Pedro o salvaria da crise energética. Agora, porém, tanto a crise argentina quanto a crise brasileira, ambas associadas à desaceleração da economia norte-americana e à recessão japonesa, tendem a aprofundar-se a um ponto que os mais otimistas consideram péssimo. Em outras palavras, podemos também nós chegar à bancarrota e à moratória, antes ou depois de FHC finalizar seu mandato, com desdobramentos sociais e políticos, cuja dimensão é difícil prever.

A reunião do presidente com os pesos pesados da economia brasileira teve justamente o objetivo de examinar a hipótese acima. A grande burguesia, apesar dos desmentidos e das desconversas, não acredita em anjos e não está disposta a correr riscos, pelo menos políticos. Ela estuda, seriamente, a hipótese de bancarrota econômica do país (não a sua) e já começa a trabalhar o seu plano B, tendo em vista aproveitar esse cenário catastrófico no sentido de impedir que Lula e o PT ganhem as eleições, ou de arrancá-los do governo caso consigam vencer, apesar de tudo.

Sem rebuços, a grande burguesia brasileira sinaliza, mais uma vez, que a democracia, mesmo de encenação, apenas é boa enquanto lhe é útil. E isso, num contexto em que parte considerável da esquerda não só faz juras de amor aos contratos e à institucionalidade vigentes, como até pretende manter algumas linhas da política econômica em curso.

Em outras palavras, a classe dominante prepara-se para qualquer hipótese, sempre no sentido de manter o poder em suas mãos, mesmo que para isso seja necessário quebrar contratos e a institucionalidade. Aproveitando-se de uma crise que ela própria gestou, ameaça seriamente o pouco de democracia que temos e coloca o povo brasileiro contra a parede.

Terá a esquerda um plano B para enfrentar um cenário de bancarrota e de medidas ditatoriais, antes de 2002, pretensamente justificadas por aquele cenário, a exemplo do que já está acontecendo na crise de energia? Ou para enfrentar o mesmo cenário, havendo ganho as eleições?

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