Encruzilhada I

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Encruzilhada I, n. 253, 14 jul. 2001.

 

 

Nosso país está numa encruzilhada. A famosa estabilidade monetária treme em todos os seus fundamentos. O câmbio torna-se uma âncora sem gancho, pela qual o real escorrega para o fundo, enquanto o dólar parece decolar para as nuvens. A solidez fiscal vira fumaça, diante do esgotamento da capacidade do povo continuar sendo tributado em cerca de 40% de sua renda, enquanto o endividamento externo dá um salto de 50 bilhões de dólares, em virtude do desarranjo cambial. O pagamento do serviço da dívida torna-se algo difícil de administrar, até mesmo para os capachos do FMI.

Constas fiscais ajustadas, inflação sob controle e forte influxo de investimentos diretos – os tão decantados fundamentos econômicos que teriam sido conquistados através de virtuosas políticas macroeconômicas fiscal, monetária e cambial – aparecem cada vez mais como o que sempre foram: fundamentos frágeis, que se sustentavam na privatização selvagem (quase 80% do patrimônio público já alienado), na exploração desenfreada dos trabalhadores (cuja renda caiu mais de 50% desde 95) e na corrupção generalizada (Lalau, está provado, é apenas um pé de chinelo).

Isso, sem considerar que fundamentos econômicos que não estão cravados num sólido terreno social não passam de miragens no deserto. Num país em que o desemprego atingiu taxas estimadas que vão de 10% a 20%, em que a economia informal de resistência popular produz alta porcentagem do PIB, em que a agricultura para a alimentação doméstica precisa ser complementada por importações, apesar da extensão de seus solos agricultáveis e dos milhões de trabalhadores exigindo acesso à terra para trabalhar, e em que o número de miseráveis oficiais é de um terço da população (50 milhões) e o de pobres é certamente quase dois terços, falar em fundamentos econômicos sólidos é, seguramente, uma piada de mau gosto.

Bastaria isso para não haver dúvidas quanto à encruzilhada em que nos encontramos. Porém, para complicar ainda mais, temos uma Constituição remendada, que permite que o país seja governado por Medidas Provisórias, e se transformou num frankestein jurídico, cujo único objetivo consiste em eternizar os privilégios das grandes corporações empresariais, em especial, de seu setor financeiro.

Em outras palavras, estamos retornando à mesma encruzilhada que a ditadura militar havia colocado o país após seu milagre, mas com o povo em condições ainda piores da que se encontrava naquela ocasião. Nesse contexto, como implementar políticas de aumento dos investimentos públicos e privados, crescimento econômico, expansão dos empregos e do mercado interno, erradicação da miséria e da pobreza, distribuição menos desigual da renda, controle sobre a inflação, equilíbrio cambial, contas fiscais ajustadas e taxas de juros baixas? Ou, como evitar que o Brasil de amanhã seja a Argentina de hoje? Mas isso é assunto para outros comentários.

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