Em disputa

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Em disputa, n. 229, s/d.

 

 

O Brasil vive uma situação interessante. Tem um governo em processo de falência pelo desencanto popular com suas políticas neoliberais. Estas prometeram o paraíso, mas empurraram pela porta do inferno tanto os grandes contingentes de trabalhadores excluídos da vida econômica e social, quanto amplos setores das classes médias que acreditavam nas oportunidades ilimitadas do mercado capitalista.

É verdade que esse desencanto e essa vida infernal não geraram explosões como as ocorridas no Equador, Bolívia e Argentina. Talvez porque aqui exista um Partido dos Trabalhadores, no qual grandes parcelas populares votam na esperança de mudanças. Esta é uma situação tática complexa, em que os governos petistas, assim como de outros partidos de esquerda, são obrigados a movimentar-se no contexto da supremacia capitalista e de seu modelo neoliberal.

Se ficarem apenas na luta contra tal modelo, agirão tão-só para a continuidade do capitalismo sob outra forma, frustrando aquela esperança. Têm, então, que operar políticas que se contraponham ao neoliberalismo hegemônico e, ao mesmo tempo, ao próprio sistema capitalista, num quadro em que ambos impuseram aos trabalhadores intensa fragmentação e dispersão, reduzindo sua força social. Recompor essa força social, através da recriação massiva da classe trabalhadora, tanto através da mobilização social contra o capital, quanto de políticas de desenvolvimento, é a chave daquilo que se poderia chamar, no contexto brasileiro, de estratégia de resistência ao avanço capitalista global, seja através de sua via neoliberal, seja através de segundas, terceiras ou quartas vias.

O sistema capitalista tornou-se tão instável quanto sua via neoliberal, não pelo fracasso da reestruturação empresarial, que continua a todo o vapor, mas justamente porque o sucesso dessa reestruturação aguça as contradições do sistema, tornando difícil forjar outro modelo menos predatório. É isso que tem levado a uma crescente reação popular e forçado os principais instrumentos políticos do grande capital a apresentar um Capítulo Social, que reduza os medos e ansiedades da sociedade civil. Pretendem que as mobilizações, como as do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, restrinjam seu combate ao neoliberalismo e busquem um modelo capitalista menos desumano.

No Fórum de Porto Alegre, quase certamente virão à tona essa visão e a da reação ao próprio capitalismo, ambas tendo como pano de fundo a interpretação da experiência brasileira. Como o capital quer, mesmo com seu Capítulo Social, que a liberalização do comércio e da economia global continue avançando, as contradições entre os diversos grupos capitalistas transnacionais, apoiados pelos governos de seus países-sede, assim como as contradições entre os países industrializados e os países do terceiro mundo e entre o capital, o trabalho e as grandes massas pauperizadas, tendem a aguçar-se, empurrando uns e outros para o confronto.

Nesse sentido, o Fórum pode trazer à luz essas contradições e os campos em disputa, esclarecendo que o neoliberalismo não é senão uma das várias formas que o diabo capitalista, como Mefisto, tem assumido durante a história. Se conseguir isso, terá dado uma contribuição positiva à luta dos trabalhadores e dos povos.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *