Elas se movem

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Elas se movem, 30 mai. 2000.

 

Não há mais dúvidas de que as camadas populares estão saindo do rumor surdo para o protesto retumbante. A virada começou com a sentida indignação dos indígenas, sem-terra e outros sem, contra a pretensão reacionária de comemorar com festas os 500 anos sob os quais foram pisados e excluídos. Depois, continuou com as ocupações dos sem-terra e desdobrou-se nas greves e demonstrações de funcionários, professores e estudantes.

Frente à tentativa de criminalizar o MST e de reprimir com violência as greves e manifestações, pode-se dizer que o movimento social espraiou-se através da ampla e incondicional solidariedade de diferentes segmentos da população. Apesar da tibieza e das vacilações de algumas personalidades da esquerda, que parecem ter mais medo do povo em movimento do que as próprias elites burguesas, e preocupam-se mais em manietar aquele movimento do que protestar contra as arbitrariedades do poder, aquela solidariedade e a firmeza popular levaram o governo a vacilar em sua sanha repressora.

É verdade que a mobilização social ainda não englobou os trabalhadores das indústrias e de outros setores. Como é verdade, também, que só aos poucos as categorias em luta começam a associar suas reivindicações trabalhistas aos problemas econômicos, sociais e políticos com que se defronta o país. Mas, apesar disso, elas romperam com a letargia e, ao contrário do que supunham FHC e seus inquisidores, puseram-se em movimento. Contra o pensamento dominante, que as imaginava e as queria imóveis, as camadas populares se moveram, ao ponto de mudarem a conjuntura política.

FHC pode até se enganar ante o que está ocorrendo e achar que resolverá a situação por meio do endurecimento e da repressão. Mas a esquerda, e o PT em particular, não podem titubear ante o quadro que está se formando. Têm o dever de apoiar as lutas populares sem reservas, pois só desse modo podem retomar seu papel de principal referência das grandes massas. Sem isto, não conseguirão colocar-se à frente das mobilizações, nem gestar uma força social unificada e poderosa e evitar lutas espontâneas dispersas e meramente destrutivas.

A esquerda, e o PT em particular, tornar-se-ão incapazes de defender e revigorar a democracia, já tão golpeada pelo autoritarismo neoliberal de FHC, se não entenderem que as camadas populares se movem conforme seu próprio ritmo e suas próprias leis, e vacilarem no dever de assumir sua direção. Neste caso, não evitarão que os deserdados e desesperados sintam-se órfãos de lideranças em quem confiem e se joguem no confronto desordenado contra o domínio tucano, sedento de sangue para Wall Street.  E, infelizmente, pior do que tudo, poderão ser atropelados pelos que se movem.

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