Economia e política

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Economia e política, n. 348, 31 mai. 2003.

 

 

Vieram à tona, nas últimas semanas, observações disparatadas sobre a relação entre economia e política. Uns dizem que os juros não caíram por causa dos políticos tagarelas e que esse não é um assunto para leigos. Outros afirmam que a competência do Banco Central deve ser medida apenas pelo controle da inflação. E ainda outros asseguram que o BC não deve responder a pressões políticas, mas a pressões inflacionárias.

No primeiro caso, a política foi elevada a poder absoluto, um domínio de iniciados, mesmo mediocremente tagarela. No segundo caso, a política foi reduzida a uma única meta, subordinando a economia e tudo mais ao objetivo supremo de controle inflacionário. No terceiro caso, a política foi transformada em algo abominável, que só atrapalha a luta anti-inflacionária.

Nos três casos, temos visões da política e da sua relação com a economia que têm sido próprias não apenas do neoliberalismo dos anos 1990, mas também da história dos regimes dominantes do Brasil em todo o século 20. Em todas elas, há o traço comum do monolitismo de uma determinada política, de uma verdade absoluta diante da qual todos devem se ajoelhar.

Desde quando só existe um tipo de política anti-inflacionária? Quem disse que todos os demais tipos de políticas de controle da inflação liquidam a austeridade fiscal? Desde quando as respostas às pressões inflacionárias são outra coisa que não pressões políticas por um determinado tipo de controle inflacionário? As próprias pressões inflacionárias são, em geral, pressões políticas do empresariado, no todo ou em parte, para manter ou elevar suas margens de lucro. E políticas de controle inflacionário são pressões políticas que respondem àquelas pressões inflacionárias, no todo ou em parte.

As políticas anti-inflacionárias que permitem vantagens apenas para o sistema financeiro são fruto de pressões políticas exclusivas desse sistema, em detrimento de outros setores. Políticas anti-inflacionárias que ataquem dois dos fatores de desequilíbrio fiscal permanente e pressão inflacionária constante – a necessidade de gerar superávits primários, não para investimentos produtivos, mas para pagar as dívidas interna e externa, e a entrada (e saída) descontrolada de “capitais de motel” – certamente conteriam a inflação e beneficiariam os setores produtivos, mas prejudicariam o sistema financeiro.

Do mesmo modo, a política anti-inflacionária não está descolada da política de desenvolvimento econômico e social. Ela pode tanto contribuir para esse desenvolvimento, quanto manter um país numa permanente quase-recessão e intensificar a miséria de seu povo, mesmo a pretexto de evitar que a inflação prejudique os mais pobres. Em qualquer ramo da economia, a política está presente. Assim, não passa de enganação querer que o BC não aceite pressões políticas, ou tenha meta única. O problema consiste em saber qual a política e a quem ela beneficia. O resto são palavras, palavras, palavras…

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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