Economia e política (6)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Economia e política (6), n. 139, 20 abr. 1999.

 

 

Não resta dúvida que as camadas populares estão, em geral, passivas. E que a burguesia nativa, apesar de angustiada diante das transformações regressivas da economia do Real, continuou apoiando a política neoliberal. Mesmo assim, ninguém pode estabelecer estratégias que suponham constante esse quadro.

Uma parte da burguesia não terá lugar no novo pacto hegemonizado pelas transnacionais. Não será sequer aceita como sócia menor. Itamar e outros políticos expressam bem tal reconhecimento e buscam saídas. Outra parte confia que participará do butim, mas já não crê que FHC conduza o processo. Procura alternativas, tanto para o colapso do governo, quanto para substituí-lo em 2002. ACM, paladino da Justiça, e o PMDB, algoz do sistema financeiro, são manifestações dessa situação em que vivem as camadas dominantes do país.

No meio bóiam as classes trabalhadoras, procurando salvar-se. Haviam sido convencidas de que a estabilização monetária era o bem supremo e de que o fim do imposto inflacionário elevaria automaticamente seu salário real. Alimentadas pelo crédito do consumo e pela mídia, que faz mentiras e parecerem verdades absolutas, não perderam a fé no mito do poder aquisitivo dos pobres nem mesmo quando o desemprego se tornou brutal.

Sob o peso desse falso consenso, os trabalhadores abdicaram de direitos historicamente adquiridos para ajudar os capitalistas a manter empregos, mesmo por pequeno tempo. Subordinaram os sindicatos à lógica da salvação do capital como base da salvação do trabalho. E deixaram de lado a luta pela redução da jornada de trabalho, a principal forma de manter taxas positivas de emprego, trocando-a pelas câmaras setoriais e outros instrumentos negociais que, úteis como tática, jamais serão alternativa à macroeconomia neoliberal.

Foram levados, assim, a um ponto em que já não existe esperança de recuperarem empregos e renda. Num novo crescimento, agora sob a hegemonia das grandes corporações, o que se prevê é uma maior contração do mercado de trabalho, pressões violentas pelo rebaixamento salarial, alongamento das jornadas, seleção mais rígida de trabalhadores instruídos com salários dos menos qualificados, e abandono completo das políticas de seguridade social.

Por qualquer ângulo que se olhe, não há tranqüilidade, seja pelo lado da burguesia, seja pelo lado das camadas populares. Estratégias que ignorem esse componente de cenários futuros podem torrar-se do mesmo modo que aqueles que só acreditam em erupção vulcânica quando as lavas já estão queimando tudo.

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