Economia e política (5)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Economia e política (5), n. 138, 13 abr. 1999.

 

 

A fantasia voltou a povoar o Planalto. Aproveitando a trégua econômica, ao mesmo tempo que adiava a reunião dos governadores, FHC juntou as bancadas aliadas para dar-lhes um motivo de união: a nova miragem de um plano de desenvolvimento. Conseguirá com isso apaziguar as brigas internas entre PFL, PMDB e PSDB e reassumir o comando político, comprovando sua tese de que as disputas em sua base de sustentação não passam de questões triviais?

Essa manobra é fundamental para o Planalto. As fraturas na burguesia nativa, que se refletem nas disputas de sua representação parlamentar, trazem à luz as contradições do projeto dominante e permitem às classes populares tomar consciência e reagir contra as políticas que ferem seus interesses. Por isso, desde o começo, a instabilidade política criada por essas fraturas foi descaracterizada por FHC e sua mídia, conscientes de que ela indicava a tendência de desagregação da política econômica.

Por sorte do Planalto, a esquerda havia tirado de sua pauta os ataques à macroeconomia do Real e só acordou para o seu desmascaramento quando desabou a crise de 98, que colocou em perigo a vitória do governo e possibilitou, no segundo turno, a eleição de governadores populares em seis estados.

Era de supor, então, que havendo conquistado posições de força em governos estratégicos, a oposição popular procurasse consolidar a mudança no quadro político, levada a seu ponto mais alto na explosão das crises federativa e cambial de janeiro. Haviam surgido condições para um cenário de isolamento de FHC, principalmente se a ofensiva de desnudamento de sua política fosse acompanhada de mobilizações populares. No entanto, por razões que a própria razão parece desconhecer, a maioria dos governadores populares optou pela negociação branda com FHC.

Reduziram sua plataforma à dívida dos estados, centraram fogo na mudança da política econômica e deram garantias à governabilidade, permitindo a FHC não fazer concessões e recobrar o fôlego. Esta tática da esquerda só é explicável pela opção por uma estratégia de conquistas progressivas de pedaços do poder, até chegar ao governo central, subordinando tudo ao calendário eleitoral e à conquista do apoio do centro político.

Pode até dar certo. Mas ela depende, do mesmo modo que as macroeconomias de valorização e desvalorização do Real e a estabilidade do governo, da estabilidade financeira mundial, do povo se manter dócil e conformado e da burguesia não se utilizar de casuismos e golpes baixos, seja contra os direitos populares e democráticos, seja na disputa interna pela divisão da riqueza e do poder. Algo para ser conferido pela vida.

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