Economia e política (3)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Economia e política (3), n. 136, 30 mar. 1999.

 

 

A desvalorização deu ao sistema financeiro, num único mês de 1999, bem mais do que todo o lucro de 1998. Uma enorme reindexação de lucros corporativos, em contraste com o brutal rebaixamento de salários e o aumento das dificuldades das empresas ditas obsoletas. Como no câmbio valorizado, atendeu aos interesses dos mesmos grupos sociais, em detrimento da maioria.

Desta vez, porém, não pôde fazer uso do entorpecimento publicitário do Real. Assim, se antes a reação da sociedade já se manifestava na constante instabilidade política, agora, com os interesses antagônicos tornando-se mais nítidos, essa instabilidade tende a aumentar.

É verdade que as camadas populares têm se mantido passivas. Contribuiu para isso a forma como a burguesia estrangeira operou para alcançar seus fins. Em primeiro lugar, aproveitou-se da vitória do capitalismo sobre o socialismo europeu e do descenso dos movimentos populares para realizar uma ofensiva ideológica neoliberal de grande vigor. Depois, para tornar-se hegemônica, cooptou parcela significativa da intelectualidade progressista e de esquerda, mantendo paralizada e sem meios a parcela que se lhe opunha.

Mas sua jogada de mestre consistiu em não restringir tal intelectualidade ao papel clássico de ordenar e difundir as idéias dominantes. Guindou-a ao poder político para, em nome dos chamados interesses gerais da nação, aplicar as políticas macroeconômicas que interessam fundamentalmente às corporações transnacionais e devem resultar na monopolização da sociedade brasileira por elas.

Com o apoio total da burguesia nativa  –  que acreditou em bloco que seria sócia plena do novo pacto de dominação  e colocou todos os seus meios de comunicação a serviço desse pacto  –  a intelectualidade no poder criou a economia do Real e a transformou numa esperança para as massas populares. Quem não se deixou enganar não teve forças ou capacidade para desvendar a verdade para essas massas.

O problema, desde o início, é que toda rearticulação dos pactos de dominação da história brasileira sempre resultaram em crises múltiplas, beirando rupturas. O momento atual, com a crise do Real (e da federação, dos poderes, do emprego, dos salários, da marginalização etc etc) parece apontar para o fim da era da intelectualidade.

Os grupos dominantes buscam alternativas que não mudem o essencial. Setores excluidos da burguesia nativa procuram saídas de sobrevivência. E as camadas populares, despidas das ilusões que nutriam, foram brutalmente acordadas para a situação de pobreza e miséria ainda maior em que as jogaram. Este não é um quadro tranqüilo, mesmo para quem gosta de ver tudo cor de rosa.

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