Economia e política (2)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Economia e política (2), n. 135, 26 mar. 1999.

 

 

O plano FMI-FHC só será viável se os brasileiros, a exemplo do cavalo do inglês, se dispuserem a correr docilmente o risco de morrer sob os sacrifícios impostos. Ou, além disso, se nenhum novo furacão financeiro desestabilizar as economias mundiais. Uma reação, ou um vento mais forte, nos climas social e político, pode desarranjar algum dos elementos do plano e desandá-lo. Foi isso que desarrumou a perfeição do Real e é isso que pode melar o plano atual.

Por quê? Porque tanto um quanto o outro são instrumentos da rearticulação do pacto de poder sobre o Brasil. As grandes corporações estrangeiras já não se contentam em dividir o mercado brasileiro com os capitais estatais e privados brasileiros. Chegaram a um ponto que necessitam e têm condições de exercer o monopólio completo sobre a sociedade brasileira. Por isso, impõem a venda barata —a privatização— das estatais e aceitam, no máximo, a associação subordinada de capitais privados nativos.

A macroeconomia de valorização do Real, como agora a de sua desvalorização, servem aos mesmos interesses. Também parece sem utilidade a quebra de grande parte do parque produtivo nacional, o desmonte do Estado, a desorganização da pesquisa científica e tecnológica e outras ações destrutivas do governo. Mas tudo isso é de grande utilidade para a monopolização do país pelas corporações multinacionais. O câmbio, os juros e outros mecanismos de política econômica, mesmo quando trocam de sinal, cumprem o mesmo papel, de forma diversa em momentos diferentes.

Talvez estejamos assistindo ao ápice das modernizações conservadoras que conformaram o Brasil como uma nação. Uma nação em que a maior parte do povo foi alijada dos benefícios da civilização pela dominação tripartite dos capitais estatais e privados nativos e estrangeiros. Sem entender a subordinação das políticas econômicas aos interesses dos segmentos sociais dominantes, estamos fadados a reivindicar mudanças que até podem ser atendidas, mas em nada modificam a essência daquelas políticas.

Parte da esquerda não exigiu a desvalorização, como se isso fosse mudar a economia de FHC? E o que aconteceu? Não há os que pensam a mesma coisa ao exigir o controle das entradas e saídas de capitais? Sob a dominação de alguns poucos monopólios, que diferença haverá entre tal controle e a política automotiva, que só permitia a presença de quatro ou cinco grandes montadoras no Brasil? Em outras palavras, ao ficarmos no varejo do que está em disputa, corremos o risco de ajudar as grandes corporações a mudar de política sem mudar nada e lucrar ainda mais, como ocorreu com o sistema financeiro na virada do Real.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *