Economia e política (1)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Economia e política (1), n. 134, 19 mar. 1999.

 

 

O governo fechou acordo com o FMI e considera-o um grande negócio. Terá que manter a inflação abaixo de 16,8%, obter um superávit primário de 3%, estabilizar o câmbio em R$ 1,70, contrair o PIB em 4%, praticar juros não superiores a 29% e obter um saldo de 11 bilhões do dólares na balança comercial. Além disso, com a aprovação da CPMF, supõe haver criado uma onda de otimismo para atrair investidores estrangeiros, reabrir os créditos internacionais e reverter a crise.

As declarações formais de apoio dos bancos centrais e dos líderes das potências capitalistas, assim como os esforços, inclusive da maior parte da oposição, para manter a governabilidade de FHC, parecem corroborar uma mudança conjuntural positiva. O pânico que levou o governo a desvalorizar o Real assemelha-se a coisa do passado.

A macroeconomia tem esse poder. Se a despojamos de seus elementos sociais e políticos, ela é capaz de tornar solúvel qualquer equação técnica. Tomemos os números do acordo com o FMI. Embora seja possível detectar contradições quase insanáveis —como recessão de 4% e superávit de 11 bilhões de dólares no comércio externo—, isto não quer dizer que seja impossível alcançá-los.

Basta o governo elevar ainda mais a carga tributária, aprofundar o ajuste fiscal, reduzindo ao mínimo os investimentos, comprimir ao máximo o poder aquisitivo dos salários, desregulamentando o mercado de trabalho e impedindo qualquer reposição salarial, direcionar quase toda a produção agrícola, mineral e industrial interna para o mercado externo, vender o resto do patrimônio público que ainda sobra, como Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, criar subsídios para o setor exportador e manter as taxas de juros elevadas para liquidar os empresários nacionais obsoletos, que a equação macroeconômica se resolverá como por encanto.

Em meados do ano 2000, o país poderá retomar um processo de crescimento. É lógico que será um crescimento diferente, tendo por base as grandes corporações multinacionais, com baixas taxas de emprego e mercado interno reduzido e seleto. Mas, do ponto de vista macroeconômico, quase certamente se terá inflação baixa, juros mais civilizados, setor exportador dinâmico e superavitário e saldo orçamentário nas contas que excluem os juros das dívidas interna e externa.

O governo terá feito com o povo o mesmo que o inglês da fábula fez com seu cavalo. Quis acostumá-lo a viver sem comer. Mas, antes de conseguir, o cavalo morreu. O inglês até hoje permanece na dúvida se daria certo. O problema de FHC consiste, então, em saber se os brasileiros, como o cavalo do inglês, se deixarão matar sem sequer empinar. E esse não é um problema macroeconômico. É social e político.

 

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