E depois?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | E depois?; 02 set. 1998.

 

 

Embora ambíguos, os expoentes do governo não mais escondem que a crise existe e pode afetar o Brasil. Sua tática, porém, não mudou. Todos os problemas que o país enfrenta, ou venha a enfrentar, seriam de responsabilidade dos países que não fizeram direito “o dever de casa”. FHC, portanto, seria o único capaz de conduzir o país em meio à tormenta, do mesmo modo que enfrentou a inflação e a domou. Bill Clinton deu sua ajuda, corroborando que o Brasil e toda a América Latina estavam “fazendo tudo certo”.

Politicamente, a tática vinha tendo sucesso.Em parte, porque a mídia tem persistido unida em sua implementação, desinformando a população de maneira sistemática e contumaz a respeito das causas da crise e da responsabilidade da política econômica de FHC frente a ela. Em parte, também, porque a oposição não soube martelar a natureza perversa do plano de estabilização, desde o começo.

Ao contrário, tendeu mais a aceitar a aparência benéfica da estabilidade monetária do que a realidade destrutiva do conjunto do plano. Depois, mesmo quando já eram evidentes as conseqüências econômicas e sociais do plano, a oposição continuou apostando que a melhor tática era não atacar, passando uma imagem positiva e construtiva.

Só agora, diante do agravamento mundial, as campanhas oposicionistas mudaram de tática e resolveram colocar o dedo na ferida. Isto é positivo e pode contribuir para colocar FHC na defensiva. Ele terá que fazer esforços redobrados para não dizer os impropérios e os escárnios que sua vaidade produz e para não perder pontos demasiados na fase final da disputa eleitoral. E, mais do que antes, terá que fazer imensos malabarismos para combinar a demagogia da queda dos juros e da retomada do crescimento e do emprego com decisões destinadas a conservar a estabilidade da moeda. Pelo menos até outubro.

Para tanto, sua equipe tem que adotar medidas em cascata para criar facilidades e lucratividade para o sistema financeiro internacional e garantir o fluxo de recursos estrangeiros. O ministro Malan reconhece que isto aprofunda a dependência do Brasil aos recursos externos e aumenta a vulnerabilidade brasileira a ataques especulativos. Mas, com a mesma política, já não pode sair da armadilha em que colocou o país.

Assim, para permitir que FHC se reeleja, pode até ter êxito em adiar os novos ajustes que causarão mais desemprego, recessão etc etc. Mas… e depois?

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