E agora, PT?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | E agora, PT?, n. 460, 06 ago. 2005.

 

Nos 25 anos de sua vida, o PT jamais passou por um momento e uma crise tão graves. Em certo sentido, pode-se dizer que sua vida foi marcada por um crescimento quase contínuo, de mais vitórias do que derrotas. O que talvez não tenha sido tão bom para sua formação. Afinal, são as derrotas que mais nos ensinam, que cimentam os valores que melhor nos preparam para os momentos difíceis.

Por exemplo, agora mesmo, em meio à crise, há parlamentares e dirigentes petistas e não petistas que culpam o sistema eleitoral pela corrupção. Para eles, bastaria instituir o financiamento público das campanhas e a fidelidade partidária para reduzir sensivelmente essa mazela que assola a vida política. Esquecem, ignoram, ou ainda não aprenderam, que a corrupção tem uma longa história. Ela se fez presente com o surgimento da sociedade de classes e ganhou dimensão quando o capitalismo se tornou predominante.

Supor que aquelas duas medidas possam banir a corrupção, ou mesmo reduzi-la sensivelmente, é o mesmo que acreditar que o capitalismo possa reproduzir-se sem estimular a ambição pelo lucro e sem incentivar a competição, seja entre os proprietários e entre os trabalhadores, seja entre ambos. A corrupção é um dos mecanismos dessa ambição e dessas competições.

Enquanto persistirem as diferenças econômicas e sociais que caracterizam as sociedades de classes, inclusive as sociedades de transição socialista, a corrupção será um dos mecanismos presentes. O caixa 2 não é uma invenção do diabo. É uma criação da ambição e da competição econômica e social. No Brasil, os representantes políticos das diversos segmentos sociais têm usado e abusado do caixa 2 de empresários para criar seus próprios caixas 2, seja para eleger-se, seja para enriquecer.

Essa, digamos, universalidade do caixa 2 tem levado alguns petistas a utilizá-la como argumento de defesa. Para eles, o PT não estaria fazendo nada diferente do que todos fazem. Pensam que, se todos são réus, todos devem ser absolvidos. Com isso, adotam a hipocrisia reinante, igualam o PT a todos os partidos e preparam seu próprio fim. Porque, na competição capitalista, simplesmente não há perdão. Os perdedores são aniquilados.

Nessas condições, antes de refundar-se, o PT precisa redescobrir o capitalismo e seus mecanismos de funcionamento e reprodução. Sem isso, não saberá vacinar-se, criar antídotos apropriados, nem manter uma luta permanente para manter-se diferente, embora vivendo na mesma sociedade. Na verdade, sem redescobrir que vive numa sociedade capitalista, sequer saberá responder à pergunta: “E agora, PT?”.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *