Dois pesos, duas medidas

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Dois pesos, duas medidas, n. 396, 07 mai. 2004.

 

 

Na história brasileira, sempre que se tratou de elevar os ganhos dos trabalhadores, em especial dos mais pobres, levantaram-se os mais diferentes argumentos para justificar os arrochos como condição de evitar os prejuízos que tal elevação de ganhos poderia causar aos investimentos, aos gastos públicos, à inflação etc. etc.

Por outro lado, sempre que foi suscitada a idéia de rebaixar os juros, limitar o pagamento das dívidas ao sistema financeiro ou controlar os lucros e movimentos dos capitais de bordel desse sistema, levantaram-se vozes ainda mais imperiosas para justificar os sacrifícios do país como condição de manter a credibilidade internacional, os fluxos de capitais etc. etc.

Rememorando a história do Brasil, não é difícil perceber a repetição de dois pesos, duas medidas, no tratamento dos interesses dos pobres e dos interesses dos abonados, em particular do sistema financeiro. Os pobres sempre participaram dos sacrifícios, enquanto os abonados quase sempre participaram com exclusividade da bonança. Assim, não é por acaso que setores crescentes de trabalhadores estranhem que o governo Lula se utilize do mesmo procedimento nas questões que interessam hoje não só aos pobres, mas a segmentos consideráveis das classes médias e das áreas produtivas.

Tecnicamente, o governo pode até ter razões que expliquem seu empenho em evitar aumentos salariais e em gerar superávits primários acima do exigido pelo FMI. Mas, social e politicamente, o governo talvez precise antenar-se com o que pensam as ruas sobre a dicotomia entre elevados superávits financeiros e arrocho dos rendimentos de baixa renda. O povo comum já não vê sentido algum em continuar se sacrificando para assistir aos representantes do sistema financeiro anunciarem lucros estratosféricos e fazerem elogios ao governo.

Nesse sentido, se somarmos isso ao aumento do desemprego (apesar dos sinais de reaquecimento econômico), da violência urbana e dos problemas sociais, não será exagero afirmar que o governo Lula corre o perigo de perder sua base social e ficar refém de aliados políticos cujos interesses tendem a eternizar as desigualdades históricas.

Se o governo não pretende que tal perigo se materialize, terá que abandonar o uso de dois pesos, duas medidas. Dizendo de outro modo, se certas exigências técnicas devem impor sacrifícios, tais sacrifícios terão que ser impostos a todos, e não só aos pobres, às classes médias e aos setores produtivos. O sistema financeiro deve ter sua cota e isto precisa ficar meridianamente evidente.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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