Doenças infantis

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Doenças infantis, n. 393, 17 abr. 2004.

 

 

O ministro Palocci tem razão quando chama de doença infantil esquerdista a idéia de crescer por meio do aumento da meta de inflação. Este não é um bom caminho para tirar o Brasil da crise em que parece atolado. Por outro lado, amarrar-se à idéia de que o reajuste econômico foi feito, e que basta aos empresários a decisão política de investir, também é sintoma infantil da crença cega nos mercados.

Estamos emparedados entre doenças infantis de diferentes colorações, incapazes de dar solução aos problemas chaves da atualidade brasileira: crescer, criar novas oportunidades de trabalho e gerar empregos. Três problemas acostumados a ter solução conjunta, mas que hoje se dissociam, em virtude da busca desesperada pela competitividade. Se, antigamente, crescimento gerava empregos e, subsidiariamente, novas oportunidades de trabalho, hoje o crescimento pode ocorrer sem nenhum dos dois.

Além disso, mantido o modelo baseado em investimentos de porte, o crescimento não ocorrerá, por mais que algumas pessoas jurem que sim aos ouvidos do presidente. Para que o conjunto da economia seja alavancado, o Estado terá que duplicar seus investimentos em infra-estrutura, construção civil e outros setores. O que se chocará com a política de superávits primários, mas não necessariamente com a política de metas inflacionárias.

A proposta que nos sobra para desatar esse nó cego, e evitar rupturas prematuras, consiste em inverter a equação. Ou seja, ao invés de criar oportunidades de trabalho e gerar empregos apenas através do crescimento, podemos também tentar o crescimento através da criação de oportunidades de trabalho e geração de empregos. Embora isso pareça cobra em cabeça de doido, há vários exemplos históricos de que esse processo é possível, desde que o Estado aja com decisão política e criatividade.

O governo federal pode, por exemplo, dar dois anos de anistia fiscal e tributária a todas as microempresas que faturem até 2 milhões de reais por ano. Isso teria um impacto político e econômico poderoso e positivo sobre alguns milhões de empreendedores e trabalhadores, sem causar impacto negativo nas receitas fiscais, já que a maioria das microempresas vive na informalidade. O governo federal também poderia criar frentes de trabalho, a baixo custo, na área de saneamento ambiental (catação de lixo sólido em lençóis d’água, reciclagem de lixo, reflorestamento urbano etc.), empregando emergencialmente algumas dezenas de milhares de pessoas.

As duas coisas, combinadas, melhorariam a oferta e a demanda no mercado de baixa renda, ajudando a economia como um todo e apontando um horizonte de crescimento. Aí, sim, só falta a decisão política.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *