Do que temos falta?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Do que temos falta?, n. 151, 17 jul. 1999.

 

 

Há um certo debate povoando a imprensa, que poderíamos chamar de literário, com palpites os mais diversos sobre o que nos falta para sair da crise. Para figuras de proa do PSDB, por exemplo, falta FHC reassumir o comando do governo, reorganizar o ministério, livrar-se do PMDB, dar dois murros na mesa, peitar ACM e imprimir ao país um ritmo de desenvolvimento.

Simples, mas o príncipe dos tucanos não consegue ir, através de terceiros, além das ameaças.

Próceres da oposição, por seu turno, acham que falta ao governo decisão e vontade políticas para superar os problemas do país, numa demonstração de fraqueza que ameaça a democracia. Para ser franco, a estes próceres parece faltar clareza. Afinal, o governo tem sido perseverante na tomada de decisões a favor das diretrizes do FMI, das grandes corporações transnacionais e contra os interesses populares. Não é sua fraqueza, mas o próprio governo, a ameaça à democracia e ao país.

Também são recorrentes as opiniões de que falta oposição no Brasil. Isto porque a oposição se atém ao seu caráter reivindicativo, quando deveria ser mais propositiva, oferecendo saídas ao governo. Segundo essas opiniões, o que interessa é servir ao país, é apresentar propostas aplicáveis ao longo do tempo, capazes de reduzir a pobreza e delinear caminhos de superação das desigualdades sociais.

A estas opiniões o que não falta é ilusão. O grupo no poder está se lixando para as propostas da oposição, exceto quando se trata de usá-las para fins demagógicos e eleitoreiros. Oferecer-lhe propostas na esperança de que sejam aplicadas em benefício da população é o mesmo que jogar pérolas aos porcos. Reforma agrária, emprego, redução da jornada de trabalho, desenvolvimento soberano etc., nada disso faz parte de seu ideário.

O que faz falta é que tais propostas sejam assumidas por aqueles que se beneficiariam se elas fossem transformadas em medidas concretas, constituindo-se em poderosa força social. Em outras palavras, que ocorra uma combinação estreita entre as propostas de mudanças sociais, as idéias-força que sintetizem tais propostas e funcionem como instrumentos mobilizadores e a mobilização social.

No momento, esses elementos estão desconectados e o debate se perde em miudezas. Mas não será de todo surpresa se a mobilização social se colocar, como o carro, à frente dos bois e conectá-los a seu próprio modo. É principalmente disso que temos falta.

 

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