Do lado de lá

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Do lado de lá, n. 143, 21 mai. 1999.

 

 

Tudo bem. As manchetes são alvissareiras: inflação em baixa, juros em queda, contas primárias com superávit e balança comercial positiva. A CPI dos bancos está sendo abafada. Covas fez um discurso emocionado, todo mundo fala que saímos da crise e Mendonça de Barros levantou a borduna do desenvolvimento no PSDB. Ninguém assume que a disputa presidencial de 2002 está na rua.

Com tudo isso, FHC se sente à vontade para ordenar que o lado de lá toque o bumbo para elevar sua popularidade. Mas é justamente do lado de lá que o ritmo, para quem entende um pouco de batuque, parece atravessado. Tem gente tocando na cadência do Oludum, outros seguindo a batida do samba paulista e, no fundo, alguém puxando carimbó, enquanto o bumbo do Planalto soa chocho e sem firmeza.

Afinal, por mais que se esforce, a imprensa aliada do governo não consegue esconder a recessão, uma das aliadas da contenção inflacionária, nem os preços que machucam fundo o bolso dos pobres. Ou o desemprego e a tensão social, que continuam crescendo. Isso para não falar de outras ameaças à estabilidade de fancaria criada pelo governo.

Além disso, FHC não consegue retomar sua batuta. Ninguém mais segue seu comando, nem o reconhece como o maestro dessa sinfônica desarrumada em que transformou o Brasil. Que outra coisa se pode pensar das convenções do PFL e do PSDB, apesar das juras de fidelidade ao presidente e das negações e desmentidos a respeito das candidaturas à presidência?

Mestre Fernandenrique bem que poderia tentar uma solução heróica. Mandar os desafinados bumbarem em outra freguesia e chamar uma turma nova, disposta a mudar a cadência. Anda até ensaiando mudar o ministério e quem impôs o pseudo-desenvolvimentista Mendonça de Barros na vice-presidência do PSDB foi ele. Mas sua valentia dificilmente passará disso.

Falta-lhe tutano para romper com seus patrocinadores da banca internacional e do fisiologismo nativo. E falta-lhe modéstia e credibilidade para negociar com outras forças. Mesmo a turma da esquerda chegada a um sarau com ele certamente pensaria bastante antes de embarcar em qualquer proposta de aliança explícita.

Talvez por isso tenha gente pensando que o melhor é esperar o desgaste inevitável de um presidente que não manda e de um governo cujos desmandos também se espraiam pelas tradicionais maracutaias, apesar das suposições anteriores sobre a honradez dos membros de sua equipe. Sem muita bulha, a esquerda poderia colher em 2002 os frutos da persistência. Esse plano só não leva em conta que o lado de lá já trabalha a todo vapor para evitar vácuos.

 

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