Dilemas táticos

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Dilemas táticos, n. 417, 02 out. 2004.

 

 

Grande parte dos socialistas abomina não só o mercado, mas o próprio termo. Apesar disso, e de se auto-entitular socialista, a China está comemorando o fato de haver sido reconhecida como “economia de mercado” pela Associação das Nações do Sudeste Asiático e pela Nova Zelândia, Cingapura, Tailândia e Quirguistão. Além disso, continua travando uma verdadeira batalha diplomática para obter esse reconhecimento dos demais países do mundo.

Paradoxalmente, quem está ideologizando o assunto, recusando-se a dar à China o status de economia de mercado e aproveitando-se disso como pretexto para acusá-la da prática de dumping são alguns países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos e pela União Européia.

O mecanismo é simples. Com base na acusação da China não funcionar como economia de mercado, os preços de seus produtos não são calculados de acordo com os custos correntes do país. Para calcular os preços que não seriam dumping, o país acusador seleciona um produto idêntico num terceiro país, e toma seu preço como parâmetro. Num caso recente, envolvendo alguns milhões de dólares de suco de maçã exportada pela China para os Estados Unidos, os americanos procuraram demonstrar o dumping selecionando uma maçã indiana 90% mais cara do que a maçã utilizada pelos chineses.

Como a maçã selecionada era de tipo especial, imprópria para a produção de suco concentrado, os americanos não conseguiram sustentar a acusação diante dos tribunais.

Os chineses ganharam a causa, mas alguns prejuízos foram irrecuperáveis. Casos semelhantes a este têm ocorrido desde 1979. Um, envolvendo aparelhos de TV, somava 500 milhões de dólares. Outro, envolvendo móveis, era superior a um bilhão de dólares.

A China tornou-se, desse modo, o país que mais sofre ações anti-dumping no mundo. De agosto de 1979 a junho de 2004, foram 584, mais de 23 por ano. Metade delas é proveniente dos Estados Unidos. E, como se vê, quando se fala, hoje em dia, em economia estatizada e em economia de mercado, há muito mais do que ideologia em jogo.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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