Diálogo ou cooptação

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Diálogo ou cooptação, n. 122, 18 dez. 1998.

 

 

FHC voltou à carga para abrir canais de diálogo com a oposição. E a mídia acompanha-o, vendendo à opinião pública a imagem de um PT aberto a tal diálogo, após haver reduzido seus “radicais” a bolsões inexpressivos.

O acordo da bancada esquerdista com o governo na MP das filantrópicas, a visita de Lula ao presidente, a desenvoltura do governador Buarque, como se reeleito estivesse, na intermediação das tratativas entre o Palácio e o PT, a propalada ascensão dos moderados do partido —tudo isso é contabilizado pelo Planalto como uma nova era nas relações governo-esquerda.

Renasce das cinzas a idéia da “oposição propositiva”. A mídia sente-se segura para apontar o futuro presidente do PT e prever a evolução dos “radicais” que conquistaram postos de governo para inevitáveis posições moderadas. E o PSDB já projeta a evolução do governo mais para o centro, chegando-se à esquerda política.

ACM acho ótimo que o diálogo ocorra e que o PT evolua para relações civilizadas e construtivas com o governo. Jáder Barbalho acha tudo muito natural, mesmo porque considera que o PT até já teria um ministro no governo (Weffort). Temos, assim, um coro razoavelmente articulado que promete abrir a casa-grande ao acesso da senzala.

Temos, porém, uma discrepância entre o diálogo buscado por FHC, aliados e mídia com o PT, e a reafirmação das políticas levadas a cabo pelo governo. Ao mesmo tempo que oferece balas de açúcar a representantes da esquerda, declara-se responsável direto pelas políticas que conduziram o país ao buraco e confirma sua disposição de continuar aplicando-as sem esmorecer.

Assim, o que parece estar em pauta são as próprias dificuldades governamentais nas áreas econômica, social e política. Aos calotes que vêm aplicando no crescimento econômico, emprego, saúde, agricultura, segurança e outras áreas, aproxima-se aquele que terá que aplicar aos que compram papéis do governo. Até uma dona de casa sabe que, quem pega empréstimo para pagar dívida, sem construir nada produtivo, em algum momento terá que declarar sua incapacidade de pagar esse empréstimo.

Nessas condições, o diálogo com a esquerda, como declarou Tarso Genro à revista Época, pretende cooptá-la. Tudo tendo em vista legitimar sua ação desastrosa para o país. O resto é fantasia, que vai desmanchar como bolha quando a indignação que toma conta da sociedade brasileira subir de tom.

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