Diálogo ou capitulação?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Diálogo ou capitulação?; n. 114, 24 out. 1998.

 

 

O cerco à esquerda se aperta. Depois dos conselhos da mídia, veio o apelo de FHC, predispondo-se a dialogar com a esquerda para obter uma união nacional em torno das medidas de ajuste. Tudo em nome do patriotismo indispensável para enfrentar a crise que ameaça a todos os brasileiros.

Oposicionistas entre aspas apressam-se a apoiar a oferta presidencial. Nada de preconceitos, proclamam. Este é o momento para a esquerda demonstrar que se tornou moderna e construtiva, deixando para trás a ideologia sectária e estéril. Portanto, ao diálogo.

Como exercício, suponhamos que o presidente está mesmo disposto a dialogar. Isto é, a discutir transparente e amplamente as medidas para enfrentar a crise. Neste caso, o mínimo a oferecer seria a discussão aberta de alternativas ao pacote que sua equipe preparou às escondidas e levou ao FMI para ser aprovado.

Entretanto, isto nem pensar. O governo não pode dar-se ao luxo de ter soberania e perder 25 a 40 bilhões que pensa salvá-lo de afundar de vez o país. O diálogo com a esquerda deve desdobrar-se em torno das Medidas Provisórias que o legislativo precisa aprovar para amarrar o pacote. Falando cruamente, em torno dos ajustes que devem apertar os cravelhos da parte da população que não tem defesa. Isto é, dos miseráveis, dos trabalhadores, das classes médias e dos setores mais fracos do empresariado.

Diálogo, para FHC, é discutir se os impostos devem aumentar 50% ou 75%, se as taxas de juros devem manter-se em 49% ou 42%, se os cortes nos gastos sociais devem afetar mais à saúde, à educação ou à moradia. Está fora de cogitação cortar subsídios aos bancos e multinacionais, cobrar as dívidas das grandes empresas e latifundiários, tomar medidas para resolver a questão de uma dívida que se tornou impagável. Seria sectarismo puro.

Em outras palavras, FHC quer que a esquerda assuma com ele a responsabilidade por jogar o país numa recessão ainda mais profunda, num empobrecimento e quebradeira econômicos ainda mais perversos, tudo para manter em dia o pagamento do colossal endividamento que gerou para manter uma estabilidade artificial. O pior é que nada disso garante que o Brasil se livrará da crise.
Na prática, o que FHC quer, mantidos os parâmetros estabelecidos pelo FMI, BID e equipe econômica, é chamar capitulação de diálogo. Para rejeitar isto a esquerda não precisa de ideologia ou sagacidade política. Basta-lhe o bom senso para não se tornar co-responsável pela piora da situação da maioria do povo e pela crise ainda mais profunda que o governo está armando.

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