Destampando o caldeirão

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Destampando o caldeirão, n. 241, s/d.

 

 

O problema atual de FHC consiste em destampar, sob controle, o caldeirão da corrupção. Já que se tornou impossível apagar o fogo que o faz ferver, procura transformar seu recuo numa ação de transparência, responsabilizando os governos passados, não o seu, pelos casos vindos a público. Aliás, guardadas as proporções, foi a mesma linha que Jader Barbalho adotou, ao tentar se passar por um ingênuo homem de negócios. Sem bola de cristal, coitado, associou-se a um empresário que parecia honesto mas, um ano depois, começou a realizar falcatruas com o dinheiro público.

Acontece que, mesmo sob controle, o caldeirão ameaça explodir e atingir não apenas os antigos e atuais aliados do presidente, mas ele próprio. Isso porque, o que está em causa, com o violento processo de rearranjo do pacto de dominação capitalista sobre o Brasil, não são os hipócritas surtos éticos dos representantes políticos das elites burguesas, mas a repartição da riqueza.

Aquele rearranjo reduziu a participação dos capitais estatais e privados nativos no conjunto dos capitais da economia brasileira, destruindo boa parte deles, ao mesmo tempo que ampliou desmesuradamente a participação dos capitais corporativos estrangeiros. Acrescente-se a isso cerca de 20 anos de estagnação relativa da economia, a liquidação da capacidade de investimento do Estado – que sempre foi uma vaca leiteira em cujo úbere a burguesia brasileira mamava impávida – e as perspectivas cada vez mais incertas sobre o prometido crescimento econômico do país nos próximos anos, e teremos os ingredientes básicos de uma disputa selvagem pela repartição das sobras da riqueza apropriada pelos grandes grupos capitalistas estrangeiros e nacionais associados.

É essa disputa que alimenta o caldeirão da corrupção e o enche de materiais explosivos, empurrando os grupos em conflito a novas revelações contra os concorrentes, a exemplo do que fez Jader ao insinuar que os grandes focos de corrupção na Amazônia estariam na avenida Paulista, em São Paulo, e não na avenida Almirante Barroso, em Belém, onde fica a sede da Sudam. Na verdade, todos sabemos que os focos de corrupção estão nos diversos centros de poder econômico e político, os mesmos centros que dominam a vida dos brasileiros. Destampar para valer o caldeirão é colocar a nu essa dominação. Daí o empenho de FHC para não perder o controle e reduzir o fogo, já que não pode apagá-lo.

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