Desafios para 2001

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Desafios para 2001, n. 226, s/d.

 

 

Os cenários do final de 2000 apontam para desafios relacionados, inevitavelmente, à disputa dos parlamentos, governos estaduais e presidência da República em 2002, embora condicionados pelas mobilizações sociais e políticas por mudanças, pelas manobras e contra-medidas das forças governamentais para reconquistar a iniciativa política e por uma série de outros fatores internos e externos que, eventualmente, venham para primeiro plano no decorrer da evolução conjuntural.

É evidente que a escolha dos candidatos e, principalmente, do candidato a presidente, constitui uma das decisões mais importantes desse contexto. Na cultura política brasileira, o nome desempenha um papel de primeiro plano, apesar da estrutura partidária vir conquistando espaço cada vez maior. O problema reside em que o nome não deve adaptar o programa, mas sim adaptar-se a ele. ACM entendeu isso perfeitamente quando, apesar de seu peso político e de suas ambições, decidiu-se pela escolha de FHC, em 94, como candidato do programa neoliberal, sob uma roupagem esquerdista.

Talvez, por isso, a oposição de esquerda tenha que se voltar, já no início de 2001, para a busca de um programa comum que tenha como eixos a recuperação da indústria e da agricultura, a reforma agrária, a criação de um mercado interno de massa, a erradicação da miséria e da pobreza, a reconquista da soberania nacional, a reimplantação de setores estatais estratégicos na economia e a participação democrática da população nas decisões governamentais. A não ser que queira se perder na pauta que o governo procura lhe impor, com a sua estabilidade, o seu ajuste fiscal, o seu compromisso de continuar pagando a dívida pública e manter as privatizações e sua obsessão em dar tranqüilidade aos investidores internacionais, como aliás estranhamente deseja o professor Cristovam Buarque.

Não há dúvida que a esquerda no governo terá que se preocupar com a estabilidade monetária. Mas, se quiser realizar isso com os mesmos mecanismos utilizados pelo governo FHC, certamente cometerá haraquiri. A esquerda no governo também terá que realizar algum tipo de ajuste fiscal. Mas, se adotar a cláusula do sistema financeiro em detrimento da cláusula social, será considerada igualzinha à aliança conservadora. A esquerda no governo pode continuar pagando a dívida pública (declarar a moratória não depende dela, como aliás bem sabem José Sarney e Mailson da Nóbrega). Mas, dificilmente, poderá pagar nos termos atuais, a não ser que queira ser acusada de deixar o país cair para o abismo.

No governo, a esquerda poderá manter as privatizações. Mas deixará de realizar auditorias sobre as negociatas com o patrimônio público, que denunciou? Deixará de renegociar os atuais termos contratuais que permitem às transnacionais decidir os rumos econômicos do país? No governo, a esquerda terá que atrair empresários estrangeiros para que invistam no desenvolvimento das forças produtivas do país. Mas, se tais investimentos não tiverem pactos transparentes de mútuo benefício, seus ministros ficarão imunes às comparações com Malan e Fraga?

O grande eleitorado brasileiro está tendendo para um governo que realize reformas estruturais, como uma reforma agrária e uma reforma agrícola que dobrem ou tripliquem a produção de alimentos e matérias primas vegetais a curto prazo, acabando com a miséria no campo e transformando o Brasil numa potência agrícola de primeira ordem. Um governo que se transforme em indutor do desenvolvimento industrial, recriando os setores estratégicos e decisivos da economia nacional, dando-lhes condições de competição e tornando-os instrumentos de desenvolvimento econômico e social. Um governo que tome a cláusula social como a primeira e fundamental de todas as cláusulas de seu programa, subordinando tudo o mais à erradicação da miséria e da pobreza, à criação de um mercado interno de massas e à melhoria dos padrões de vida do povo.

Quase certamente será em torno desse programa que se travará a disputa de 2002. A direita troglodita, em grande parte formada por Lalaus e inocentes úteis, o combaterá com populismo e com as mesmas truculências que usou em 2000. A direita civilizada e o centro quase certamente vestirão seu próprio programa neoliberal com os mantos do programa da esquerda, como fizeram em 1994 e 1998, dando-lhe ainda um toque populista e, tudo indica, apelando
também para a truculência. O problema consiste, então, em saber se a esquerda conseguirá, por um lado, diferenciar-se dos imitadores, criando um movimento político forte que simbolize o atual desejo de mudança, e, por outro, não se amedronte com os ataques truculentos da direita, abaixando o tom da voz e rebaixando seus propósitos, como fizeram alguns de seus candidatos em 2000.

De qualquer modo, a campanha já está nas ruas e as forças políticas já se digladiam para conquistar as posições mais favoráveis e as melhores armas. Os desafios de 2002 subordinam todo o resto. A não ser que algum maremoto nos atinja, é claro!

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