Desafios do futuro

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Desafios do futuro, n. 523, 28 out. 2006.

 

 

Se não ocorrer qualquer catástrofe, se não acontecerem ações desastradas de petistas ou pseudo-petistas “inteligentes”, e se a direita engolir seu racismo sem gestos extremados e desesperados, estes comentários serão lidos já sob o fato da vitória do PT e seus aliados no segundo turno. Em outras palavras, dadas as atuais condições, as forças políticas já estarão envolvidas nas discussões em torno da natureza e das perspectivas do segundo mandato de Lula.

A direita, apesar dos desmentidos de última hora, para evitar mais perdas eleitorais, deve continuar trabalhando no sentido de desestabilizar o governo e, se possível, apeá-lo antes do tempo. Quem acompanhou de perto as reações dos dirigentes tucanos e pefelistas, assim como de parte considerável da massa da burguesia e da mídia brasileiras, sabe que o ódio à reeleição de Lula foi além de qualquer limite imaginável, não sendo possível superá-lo com propostas de concertação ou algo parecido.

A direita também demonstrou, durante o segundo turno, que certas visões sobre a identidade de propostas entre os dois candidatos à presidência não passava de uma ilusão de ótica. Embora ainda tentando encobrir suas verdadeiras intenções, sob a máscara de uma ética que não pratica, a direita se viu obrigada a explicitar suas opções por um corte de gastos profundo, às custas dos programas sociais, pela continuidade do programa de privatizações, às custas do patrimônio e das finanças públicas, e pelo retorno à política externa de submissão ao Império.

Bastaria isso para delimitar as diferenças e suscitar a raiva à raça petista. Mas a direita também não perdoa o fato de haver perdido seu monopólio sobre as grandes massas pobres. Apesar de ainda haver se utilizado da compra de votos nos grotões rurais e nas periferias urbanas, não conseguiu evitar que uma grande parte dos contingentes populacionais dessas áreas transitasse para o apoio a Lula e a candidatos identificados com ele, rachando a base onde se assentava o poder de algumas de suas figuras emblemáticas, como ACM.

Assim, apesar de existirem forças que continuam sem enxergar as diferenças entre o PT e o PFL e PSDB, e entre Lula e Alckmin, tais diferenças existem e são profundas. Da mesma forma que existem diferenças entre as forças que se aliaram ao PT e a Lula, seja no primeiro, seja no segundo turno, embora a situação em que ocorreu a disputa aponte para a necessidade objetiva de um governo de coalizão, sob a direção do PT.

Nessas condições, olhando para o futuro, será preciso pensar e discutir como, a partir dessa realidade e das crises vividas pelo PT e pelo governo, será possível avançar tendo como eixo principal a reconstrução da força social dos trabalhadores e demais camadas populares, e o revigoramento do PT como partido democrático, popular e socialista.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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