Desafios (3)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Desafios (3), n. 339, 29 mar. 2003.

 

 

Paul Singer diz que, para crescer, é preciso estimular a demanda efetiva dos consumidores. Ou seja, tal estímulo produzirá aumento da produção, que criará novas necessidades e demandas, que induzirão o processo de crescimento econômico.

Ele também afirma que a política de conter a inflação através da política monetária de aumento dos juros, redução da oferta de moeda e corte maior dos gastos públicos, proposta por Lisboa, inibe o aumento da demanda efetiva e, portanto, o processo de crescimento, com enormes custos sociais, no que tem razão.

Entretanto, para evitar que o estímulo à demanda provoque inflação, ele sugere apenas a criação das câmaras setoriais, o que parece muito frágil. Nada garante que estas contenham a inflação, já que não basta a vontade das partes para baixar os preços. O Brasil está totalmente vulnerável a variáveis externas, que não domina. Assim, embora a idéia das câmaras setoriais seja boa, ela pode se perder sob a imposição de custos insuportáveis.

Além disso, quando falamos em câmaras setoriais, falamos dos setores organizados da produção, isto é, dos sistemas dominante e intermediário da economia brasileira. Mesmo que esses sistemas chegassem a entendimento para reduzir lucros e baixar preços, teriam pouca influência sobre um estímulo real à demanda efetiva. São sistemas que tendem a ganhar competitividade elevando a produtividade e expelindo sua mão-de-obra. Em outras palavras, a demanda efetiva das empresas pode até elevar-se, sem que isso crie empregos e estimule a demanda efetiva das grandes massas de consumidores individuais e familiares.

Esses desafios, com os quais se confrontam o governo Lula e a sociedade brasileira, não serão superados nem com a política recessiva, nem com medidas que atendam apenas ao crescimento dos sistemas produtivos dominantes e tragam o perigo de retorno da inflação. Num caso e noutro, estaremos fadados a viver um eterno parar-e-avançar ou avançar-e-parar, sem dar sustentabilidade ao crescimento e à distribuição de renda.

Somos obrigados, por defeito, não por virtude, como pensa Lisboa, a realizar cortes e contingenciamentos. Mas, se queremos sair desse anel de ferro, será preciso, ao mesmo tempo, implantar medidas de fuga, que reduzam as vulnerabilidades externas e transformem os atuais custos sociais em custos produtivos. Em outras palavras, medidas que mudem o perfil do fluxo de capitais externos, facilitando apenas o ingresso dos investimentos produtivos, que criem instrumentos variados de contenção da inflação, como as câmaras setoriais, e, principalmente, que tornem todos os programas sociais do governo em instrumentos de criação de novas atividades produtivas e novas oportunidades de trabalho. Só formando uma nova massa crítica produtiva será possível sair do impasse Lisboa-Singer.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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