Desafios (1)

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Desafios (1), n. 337, 15 mar. 2003.

 

 

As entrevistas de Marcos Lisboa, secretário de Política Econômica do ministério da Fazenda, e de Paul Singer, escolhido para a secretaria de Economia Solidária, publicadas em O Globo de 09/03/2003, retratam bem os dilemas herdados do governo FHC.

Marcos Lisboa diz que o governo vem se esforçando para desarmar a armadilha fiscal que tem caracterizado a economia brasileira nas últimas décadas, cujos custos têm sido inflação alta ou dívida crescente. Sair dessa armadilha será um processo custoso, porém essencial para a retomada do crescimento em bases sustentáveis e para a redução das taxas de juros. Nesse sentido, a boa gestão pública, com disciplina fiscal e orçamento público sustentável, deve ser prioridade de qualquer política econômica e representar uma ruptura com nosso passado de longo prazo.

Para ele, o desequilíbrio fiscal da segunda metade dos anos 90 seria parte importante da explicação da atual dívida pública. Se o governo passado houvesse realizado superávits primários de 3,5% do PIB, nossa dívida seria de 30% do PIB, não os 56% atuais. Tal resultado ocorreria, apesar de mantidos os demais aspectos da política econômica, inclusive o câmbio fixo e a política monetária entre 1995-1999. Mesmo assim, ele considera que houve uma melhoria progressiva das contas fiscais nos últimos quatro anos, mas, como essa melhoria foi tímida, o remédio amargo de curto prazo da política monetária tem que ser aplicado, porque a inflação é uma doença de conseqüências graves a longo prazo.

Paul Singer, por seu lado, diz que para crescer é preciso estimular a demanda efetiva dos consumidores, das empresas. Ou seja, ter-se-ia que fazer o contrário do que o governo vem fazendo, que é controlar a inflação com a política monetária de aumento de juros, redução da oferta de moeda e corte maior dos gastos públicos. Essa estratégia pode evitar que a inflação contamine o setor de serviços, mas, se a economia for mantida em recessão ou estagnação, o custo social será muito grande.

Ele considera necessário, então, achar outras formas de impedir que a desvalorização contamine os preços, como a taxação das exportações e as câmaras setoriais, que envolvam toda a cadeia produtiva e forcem a baixa dos preços. Assim, seria possível crescer e manter a inflação sob controle, como aconteceu no milagre econômico, sob o comando de Delfim Neto.

Temos aí um painel sucinto dos desafios com os quais o governo Lula e a sociedade brasileira se confrontam. A diferença é que, dessa vez, as saídas não podem ficar por conta apenas dos gestores das políticas financeiras. A sociedade precisa opinar e encontrar soluções. Voltaremos ao assunto.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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