Democracia e disciplina

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Democracia e disciplina, n. 344, 03 mai. 2003.

 

 

O mundo político brasileiro sempre viveu na quase completa infidelidade partidária. A troca-troca de siglas ainda hoje é uma prática comum. Assim como é corrente que as posições públicas e os votos dos parlamentares a projetos sejam, via de regra, resultado de interesses próprios e não de decisões partidárias. Nem por isso a mídia costumava fazer escândalo em torno do assunto.

A situação mudou com o crescimento do PT e sua ascensão ao governo central. As posições divergentes dentro desse partido passaram a ser matérias de primeira página. Não tanto pelo conteúdo das divergências. Porém, pelo que elas podem colocar em xeque a integridade do PT. Os grupos derrotados em 2002 não aceitam que esse partido seja, ao mesmo tempo, democrático e disciplinado para a ação política. Esse traço distintivo do PT como organização política, para tais grupos, é uma contradição em termos que precisa ter fim.

Nesse sentido, mesmo que os parlamentares petistas, chamados de “os radicais do PT” pela imprensa, tivessem algum razão em opor-se às propostas de reforma do governo Lula, seu método, incluindo a ameaça de uma possível ação judicial, rompe a disciplina partidária e fere profundamente aquele traço distintivo. Em política, o método não pode ser dissociado do conteúdo. Como regra, mesmo uma boa causa se perde se o método utilizado para alcançá-la for errado.

Democracia e disciplina, ou democracia e centralismo, são dois aspectos do método de organização interna do PT. A democracia é fundamental para aprofundar a participação, dirimir as divergências e alcançar a unidade política. A disciplina é essencial para transformar as decisões em força política e ações reais. Em outras palavras, em caso de permanecerem as divergências, vale a decisão da maioria para a ação política. Quebrar a disciplina, mesmo sob a alegação de que tem faltado democracia interna para debater as reformas, desqualifica o método.

Desse modo, ao invés de ajudarem o PT a encontrar uma forma de resolver suas atuais divergências, na complexa situação de transição do governo neoliberal para um governo que se pretende democrático e popular, aqueles parlamentares apenas conturbaram a situação interna do partido e abriram flancos para os ataques dos antipetistas.

Por outro lado, o método de tratar quebras de disciplina e de democracia também não é secundário. A história da esquerda brasileira ensina que é preferível ser duro na crítica, mas condescendente nas medidas administrativas. Talvez a maioria do PT, antes de adotar tais medidas, devesse examinar com mais propriedade se sua crítica aos argumentos daqueles parlamentares foi suficientemente consistente e dura. E, em qualquer caso, só adotá-las quando a quebra da disciplina se materializar. Medidas administrativas preventivas talvez não sejam o melhor caminho para esclarecer discrepâncias políticas, praticar a democracia e intensificar a disciplina.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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