Declaração de voto

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Declaração de voto, n. 362, 06 set. 2003.

 

 

Se qualquer “defesa” do governo Lula está se tornando, para alguns setores da esquerda, uma atitude de lesa traição, sinto-me na obrigação de fazer uma declaração de voto.

Mesmo que eu estivesse contra todas as políticas do governo Lula, eu ainda o estaria “defendendo”. Porque não passa de estupidez supor que fomos nós, a esquerda, ou os representantes do capital, como já começam a afirmar alguns, que colocaram Lula e o PT no governo. Quem os colocou lá foi o povo brasileiro, na clara suposição de que estava elegendo a esquerda e os socialistas. Então, uma derrota do governo Lula, independentemente de ter ou não uma parte da esquerda contra ele, será uma derrota de toda a esquerda, uma derrota estratégica, cujas conseqüências negativas terão longa duração. Se alguém pensa que poderá escapar dessa sina, criando partidecos sem enraizamento nas grandes massas populares, certamente desconhece as lições da história.

Com esta visão, a “defesa” do governo Lula significa, antes de tudo, a defesa de uma vitória histórica do povo brasileiro, algo desconhecido nos quinhentos anos de nossa história, e no contexto de uma correlação de forças extremamente complexa. Em segundo lugar, a “defesa” do governo Lula significa distinguir aquilo que é tático do que é estratégico, aquilo que é concessão eventual diante de uma correlação de forças desfavorável, daquilo que é concessão relacionada com aspectos fundamentais da estratégia popular. Quem está considerando as reformas da previdência e tributária como verdadeira traição, certamente não faz aquela distinção, coloca tais reformas no quadro dos aspectos fundamentais da estratégia, e tem a mesma visão estratégica da direita do PT e da direita em geral.

Em terceiro lugar, a “defesa” do governo Lula significa aproveitar plenamente as condições, oferecidas pela chegada do PT ao governo, para resgatar a força social, hoje fragmentada, desagregada e desorganizada, dos trabalhadores e das grandes massas populares. Os programas sociais e de emprego do governo Lula, principalmente o Fome Zero, permitem à militância do PT atuar em faixas da população das quais sempre tiveram dificuldade em se aproximar. Permitem ajudá-las a recuperar sua dignidade através da criação de novas oportunidades de trabalho, do exercício da democracia de base, da auto-gestão e da auto-organização.

Em outras palavras, permitem recriar uma força social e política poderosa entre as camadas populares. Esta, na minha opinião, é a questão estratégica fundamental da atualidade. Somente com uma força desse tipo será possível mudar a correlação de forças e abrir campo para que o governo não seja obrigado a fazer tantas concessões táticas. Sem considerar tais questões, muitas das declarações de voto que atacam o governo Lula e o tomam como inimigo vão se perder em miudezas e não contribuirão em nada para acumular as forças necessárias que podem garantir ao governo Lula manter sua natureza popular e socialista.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político

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