De que ri o presidente?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | De que ri o presidente?, n. 145, 05 jun. 1999.

 

 

FHC pode não ser, necessariamente, um homem risonho. No entanto, sua equipe de propaganda firmou sua imagem como tal. E de tal modo que, a não

ser que seja apanhado desprevenido, os flagrantes do presidente o apresentam sempre rindo. Tanto faz que o Brasil esteja sendo atacado por surtos especulativos, que a seca nordestina haja recrudescido, que grampos e fitas tragam à mostra as tripas do governo, que ministros se degladiem em público, ou que os níveis de desemprego tenham superado a marca dos 20% — lá estará o presidente rindo para as máquinas fotográficas e para as câmaras de TV.

De que ri o presidente? De que, apesar de tudo, seus auxiliares lhe trazem informações confidenciais de que tudo vai bem, no melhor dos mundos? De que Bill Clinton lhe telefona como se estivesse ligando para um membro do G7 e pedindo seus conselhos sábios? De que Dona Ruth deixou de importuná-lo com exigências descabidas do Comunidade Solidária?

Ou, mais propriamente, ele ri dos aliados, que acham que ele não governa mais e disputam à tapa o comando do país? Ou do Mendonção, que foi colocado numa fria ao ser trazido de sopetão para a arena política? Ou do Covas, que lhe prestou solidariedade por atos constitucionalmente indefensáveis? Ou das fitas do grampo do BNDES trazerem à luz, além de negociatas, conversas pouco edificantes sobre chifres e segredos de alcova?

Afinal, de que ri mesmo o presidente? De Armínio Fraga assumir ares e posturas de presidente de fato? De seus discursos precisarem ser aprovados pelo presidente do FMI e por Mr. Fishlow? Ou de setores da oposição ainda custarem a crer que um pretensioso vetusto sociólogo possa se revelar um poltrão digno de uma porno-gang-chanchada subdesenvolvida?

Talvez haja mil razões para o presidente rir. Entretanto, quaisquer que elas sejam, na travessia atual da história deste país chamado Brasil, um presidente que fica permanentemente preocupado em mostrar os dentes para aparentar tranqüilidade e segurança não é risonho. No mínimo, é bisonho.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *