De que lado?

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | De que lado?, n. 374, 29 nov. 2003.

 

 

O problema de definirmos de que lado estamos é mais complicado do que aparenta ser. Tomemos, num extremo, o exemplo do terrorismo. Os carros-bomba que abalaram a Turquia e, em geral, os povos de todos os países aparentemente dirigiram-se contra os interesses da Inglaterra e dos Estados Unidos, em resposta ao terrorismo de Estado dos governos desses países e de Israel. Na prática, no momento em que os movimentos populares em diferentes partes do mundo, e dentro dos EUA e Grã-Bretanha, colocavam as mentiras de Bush e Blair na berlinda, o terror lhes deu novo fôlego para embaralhar as cartas e tentar aparecer como cruzados na defesa dos povos contra atos insanos.

Ou seja, o terrorismo apresenta-se como estando do lado dos povos oprimidos, hoje especialmente dos palestinos, afegãos e iraquianos, contra o imperialismo terrorista da potência hegemônica e de seu sócio menor. Porém, na prática, está do lado dele, seja por atingir principalmente a população civil, seja por criar enormes embaraços políticos à mobilização popular e democrática dos povos contra a guerra e a dominação.

Algo parecido, embora em proporção muito menor e menos trágica, ocorre quando realizamos uma análise em que colocamos nos dez por cento mais ricos da população brasileira todos aqueles que têm rendimentos superiores a novecentos reais. Isto poderia até ser considerado uma piada sem graça, se não fosse amplificada e repetida como coisa séria por milhões de exemplares de jornais e revistas. Aparentemente, tal análise visa evitar que os “mais ricos” recebam privilégios do Estado e que este possa direcionar seus recursos realmente para os mais pobres.

Na prática, tal análise não só distorce a realidade, como induz o Estado a adotar políticas que vão achatar ainda mais os rendimentos das classes médias e mesmo dos setores de maior rendimento das classes trabalhadoras. Do ponto de vista político, mistura num mesmo saco os segmentos sociais responsáveis pela situação crítica em que o país ainda se encontra e parcelas significativas de segmentos sociais que são vítimas dessa situação.

Não é preciso ter grande sapiência para saber que, entre o 1% realmente rico e os outros 9% incluídos entre “os mais ricos”, existe um fosso intransponível. Colocar num mesmo cesto, junto com os Ermírio de Moraes e os Gerdau, só para citar dois representantes expressivos daquele 1%, parcelas das classes médias e dos trabalhadores, apenas embaralha os dados e os lados. Assim, é o caso de perguntar a quem fez a análise: afinal, de que lado você está?

 

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

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