De marcha à ré

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | De marcha à ré, n. 409, 07 ago. 2004.

 

 

Uma das formas de verificar o conteúdo das propostas políticas, econômicas e sociais, em particular daquelas que são polêmicas ou das quais não temos muita clareza, é ouvir as opiniões dos adversários. Embora esta regra contenha alguns perigos embutidos (o adversário pode estar fazendo jogo duplo), em geral ela é eficaz se temos algum conhecimento sobre a natureza desse adversário.

O título destes comentários e as observações acima vêm a propósito das opiniões de Fernando Henrique Cardoso e do “O Estado de São Paulo”, em O Globo de 01/08/2004, a respeito da proposta governamental de Parcerias Público-Privadas (PPP) e das “propostas do BNDES de alavancar grandes projetos de infra-estrutura com dinheiro público ou de empresas públicas”. Ambos consideram que isto favoreceria “os agentes econômicos escolhidos”.

Sem dúvida, de favorecimentos o ex-presidente entende. Ele poderia ter refrescado nossa memória relembrando como favoreceu “os agentes econômicos escolhidos” durante seus oito anos de governo, envolvendo-se em escândalos diversos. Já o Estadão, para quem tudo desemboca no terreno ético, e para quem as PPP darão margem a “licitações dirigidas” e a “ligações espúrias” entre o governo, os empresários e os partidos, também poderia referir-se à sua omissão diante de “ligações espúrias” envolvendo aliados políticos.

Na verdade, nenhum deles está preocupado com possíveis tendências privatistas das PPP, nem com o fato de o BNDES emprestar dinheiro público para empresas privadas. O que os atormenta é justamente o contrário: o aumento da interferência estatal no processo econômico, tirando do mercado o poder exclusivo de decidir onde investir, e como investir.
Com a sutileza enganadora peculiar da direita, FHC centra toda sua argumentação no apoio às observações do Estadão e na acusação de que a proposta das PPP modifica, “sem anunciar”, a organização federativa do Brasil, revertendo a descentralização e a autonomia dos estados e municípios.

Pretende, portanto, desqualificar as PPP e a ação do BNDES pelos pretensos aspectos éticos e federativos. Apesar disso, no final, não consegue se furtar de dizer que elas têm “a mesma inspiração arbitrário-estatal-desenvolvimentista” do ditador Geisel, o que o leva à sensação “de marcha à ré depois do grito de ‘direita volver!'”. Pela sua lógica, concluímos que o grito de “direita volver!”, dado por ele, Fernando Henrique, e, segundo ele, continuado pelo PT, estaria correndo o risco de sofrer um retrocesso. Se é isso, talvez essa “marcha à ré” venha a calhar.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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