Dança e contra-dança

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Dança e contra-dança, n. 130, 19 fev. 1999.

 

 

O carnaval talvez tenha sido uma pausa para meditação, mas é difícil que o retorno às lides econômicas, sociais e políticas apresente modificações essenciais em relação ao período anterior. Mesmo porque o FMI não descansou em seu trabalho de apertar ainda mais os parafusos que colocam o país sob sua tutela e a situação crítica em que vive o país não parou de corroer seus fundamentos de sociabilidade.

Mas não deixa de ser novidade que o governo, por intermédio de todos os seus porta-vozes oficiais e eventuais, sinalize insistentemente que pretende negociar, tendo como ponto importante de partida a reunião com todos os governadores. É verdade que, ao mesmo tempo, continua retaliando contra Minas e Rio Grande do Sul e procurando meios para cooptar alguém da oposição, dividindo-a. Mas, para quem entende, isso faz parte da regra do jogo. Ou seja, quem dança, tem que fazer a contra-dança.

Eis porque, para a oposição, será preciso adotar táticas que levem em conta essas manobras palacianas. O primeiro problema reside em crer ou não nas boas intenções do governo. Isso, às vezes, transparece no discurso e nas ações de alguns oposicionistas. Eles não se dão conta de que, mesmo que FHC tenha alguma boa intenção, ele terá que sepultá-la em função dos compromissos que assumiu com as corporações transnacionais e o FMI. A oposição não pode vacilar diante desse fato inarredável.

Outro problema é se, diante de tal fato, a oposição deve ser intransigente ou não. Há oposicionistas que consideram Itamar e Olívio intransigentes demais. Entretanto, eles pouco falam da intransigência absurda do governo. De qualquer modo, num processo como o atual, é preciso que a oposição defina o que é negociável e o que é inegociável.

Em todo confronto, mesmo pacífico, em que as forças se dispõem a negociar, isto é uma preliminar. Uma força que apresenta tudo co–mo negociável já senta à mesa em desvantagem. A autonomia dos estados é negociável? A soberania do país é negociável? O pagamento pelo povo das dívidas contraídas pelo governo FHC para engordar o sistema financeiro é negociável? Sem definir essas e outras questões, a oposição corre o risco de se enredar nos contratos irresponsáveis assinados pelos governos anteriores e, na ânsia de se mostrar transigente, perder o apoio popular.

Assim, será preciso ser intransigente em alguns assuntos fundamentais para o povo e o país e ser transigente naquelas questões que abrem portas ao governo para encontrar saídas. Se ele não quiser atravessá-las e levar o país ao impasse, a responsabilidade será dele. A oposição, por sua vez, também deve estar preparada para essa possibilidade, que não depende dela, mas da intransigência dos que comandam FHC. Por mais que ele queira fazer a dança e a contra-dança.

 

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