Cuidado com os remakes

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Cuidado com os remakes, n. 394, 24 abr. 2004.

 

 

A discussão sobre a política econômica continua atravessada pelas propostas de elevação das metas de inflação, como se isso fosse o xis do problema. Manter a inflação em patamares baixos é uma condição macroeconômica de suma importância. Quando a inflação foge do controle, principalmente pela ausência de austeridade fiscal, o caminho clássico tem sido o aperto fiscal e monetário, com arrocho de salários, corte de despesas, juros elevados e outros remédios, em geral amargos.

Nesse sentido, não há muito o que inventar. Qualquer ministro duro, de Joaquim Murtinho a Pedro Malan, faz isso com maestria. O que eles não tiveram foi a arte de realizar os ajustes sem sacrificar o desenvolvimento. Mesmo porque tinham um problema complementar, maior do que o resto. A dívida pública, em especial a dívida com credores internacionais, sugando os recursos minguados que deveriam ir para os investimentos.

Num quadro como esse, a macroeconomia tende a chocar-se cada vez mais com as demandas de crescimento, levando ao surgimento de perturbações econômicas e sociais. Historicamente, tais perturbações desaguaram na derrota política dos gestores dos planos de ajuste. Um exemplo paradigmático foi o de Nicolai Ceausescu, na Romênia. Ele decidiu levar ao limite seu arrocho macroeconômico para pagar a dívida pública, conduzindo o país a um quadro de penúria e convulsão social. Muita gente gosta de relembrar sua derrocada apenas pela truculência do regime. Mas é preciso não esquecer o caldo econômico e social que conduziu à revolta popular.

Outro exemplo, que tem sido escamoteado, é o do próprio governo FHC-Malan. Sua macroeconomia, apesar de elogiada até por setores populares, levou a uma profunda divisão na burguesia, justamente por não conseguir resolver a dicotomia entre aquele controle macro e o crescimento. Ou, dizendo de outro modo, entre a geração de recursos para pagar a dívida pública e as necessidades de investimentos na produção.

As conseqüências da política macroeconômica de FHC-Malan no tecido produtivo, no emprego, na geração de renda e em outros aspectos da vida social foram de tal ordem que a derrota política tornou-se inevitável. Os desarranjos causados pelas turbulências financeiras internacionais apenas agravaram o quadro de profundo descontentamento social, criando as condições para a vitória histórica de um candidato popular.

O xis do problema reside, pois, no endividamento e no constrangimento que ele causa nas taxas de investimento. Sem resolver isso, talvez estejamos fadados a assistir remakes de histórias passadas.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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