Cuidado com o secundário

Correio da Cidadania

WPO | ART | CCD | Cuidado com o secundário, n. 287, 16 mar. 2002.

 

 

Nosso país está assistindo a uma situação que parecia impensável: a briga de foice em quarto escuro entre os aliados do condomínio de poder. A disputa pelas migalhas da reestruturação patrimonial que impuseram ao Brasil também os assola, fazendo com que as novas oligarquias em formação se esforcem para sobrepujar as antigas, utilizando-se dos métodos desta, sem pudor e com uma agressividade inusitada.

Essa disputa, diga-se de passagem, já vinha de longe. Então, não há surpresas. A programada eleição presidencial apenas colocou em pauta a possibilidade de resolvê-la de forma legal e, aparentemente, civilizada e incruenta, embora com rasteiras e golpes típicos de gangues e quadrilhas. Assim, se as condições já eram favoráveis para a esquerda porque o descontentamento popular com a política de FHC havia se intensificado desde 1999, tais condições se tornaram ainda mais positivas com a briga dentro da aliança governista. Nesse sentido, o que salta aos olhos no conturbado quadro político brasileiro não é o saco de gatos em que se transformou o grupo no poder, mas a defensiva da esquerda.

Ao invés de atacar os pontos fracos do adversário (crescimento do desemprego, epidemia de dengue, explosão de casos de corrupção, utilização dos órgãos do Estado para fins eleitoreiros etc. etc. etc.), a esquerda parece fechada em copas, talvez com receio de macular sua postura “positiva”. Ao invés de colocar nas ruas as idéias-força de seu programa de reformas (como o assentamento de um a dois milhões de famílias rurais, programas massivos de apoio à economia popular, redirecionamento dos recursos do serviço da dívida externa para investimentos públicos na redução da pobreza e no crescimento econômico, combate decidido à criminalidade, incluindo a de colarinho branco, e incremento da participação popular nas decisões governamentais), e trabalhar essas idéias-força como instrumentos de mobilização social e política, a esquerda prefere guardar o jogo, perdendo-se em discussões secundárias, a exemplo da pureza suficiente do PL para aliar-se ao PT.

O problema do PT e de Lula não reside nas alianças com A, B ou C, mas em se eles têm forças sociais e políticas de suporte suficientemente potentes para manter o núcleo programático e inegociável das reformas necessárias ao país, e para atrair não só a esquerda, mas grandes contingentes populacionais ainda sob a influência conservadora. Se o PT e Lula souberem mobilizar tais forças, aparecerão, aos olhos espantados da militância petista, independentemente de quem quer que seja, aliados de todo tipo, procurando lugar no arrastão popular. Se não tiverem tal força, não conseguirão aliados nem entre a antiga frente democrática e popular. Estamos no momento de optar entre o essencial e estratégico e o secundário e tático. Todo cuidado é pouco.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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